O Social Sustentável e o "Dolce Far Niente" Italiano

A doçura de não fazer nada, eis a tradução da expressão italiana "Dolce Far Niente". Para quem olha o trabalho a partir de sua vertente produtivista, de que vivemos para tralhar, não consegue entender a dimensão correta da ideia italiana de que se trabalhar para bem-viver, sem que isso se possa considerar isso como ociosidade, improdutividade ou até mesmo preguiça.

Na obra "A loucura do trabalho", Christophe Dejours demonstra como o mundo moderno criou amarras espirituais ao homem livre, mas pesadas que os grilhões da escravidão. Trabalhar passou a ser, em muitos casos, a razão da vida das pessoas, o preenchimento de sua condição humana e do seu senso de individualidade e missão de vida.
 
Assim, em muitos países e sob condições brutais, grande parte da humanidade é submetida a trabalhos intensos, acima de 8 horas diárias, como se isso fosse algo inerente à natureza humana civilizada.
 
Ledo engano, tal concepção alimenta um modelo econômico concentrador de riquezas, capaz de permitir que 20% da população mundial não trabalhe e viva o "bem-viver" à custa do trabalho dos 80% restantes.
 
Nesse ponto, o mundo não necessita de mais riquezas ou de PIBs (Produtos Internos Brutos) crescentes. O mundo necessita de uma redistribuição das riquezas, a partir de limites impostos às possibilidades de acumulação de renda individuais absurdas, como existem atualmente.
 
Surge assim espaço para a reconstrução ética de um socialismo sustentável, no qual as regras do Direito em relação à propriedade são mantidas, assim como a estrutura capitalista das trocas, a qual se demonstrou vencedora em face das deficiências do modelo comunista em todo o mundo. Não obstante, são adotados limites efetivos a essas acumulações. Não faz sentido existirem bilionários no planeta, assim como multimilionários na casa dos cem ou mais.
 
Há que se permitir a livre iniciativa e o mercado, mas dentro de limites legais, e isso precisará um dia entra na pauta das nações. Qual é esse limite? Não há como se afirmar. É algo a ser demarcado em cada nação. Mas deve ser aquele de um valor que não ultrapasse tantas vezes o salário mínimo, por exemplo. Acima disso, haveria a taxação de alíquota tributária. 
 
Outrossim, também se faz isso pela tributação não só da renda por parte do Estado. Tributação sobre grandes fortunas já existentes é um grande começo. Tributação verde, a exemplo de um IPVA progressivo para veículos poluidores e em conformidade com espaço público que ocupam. Tributação ampliada sobre alimentos e bebidas nocivos à saúde, especialmente aqueles que provocam doenças crônicas atualmente epidêmicas (Hipertensão e Diabetes). Também a tributação das externalidades, especialmente em face de resíduos decorrentes da produção para o consumo, cuja destinação seja os lixões, enquanto o lucro permanece às empresas sem responsabilidade socioambiental.
 
O recolhimento de impostos nesses casos permite continuar o plano de redistribuição de renda, mas principalmente permitem mais investimentos em saúde, segurança e educação, pontos fundamentais à construção de uma sociedade do bem-estar.
 
Aliado a tudo isso, talvez saber observar os exemplos de países a seguir, não se focando nos intensos poluidores (EUA e China), mas sim, em nações de bem-estar, a exemplo da Itália que, apesar de suas dificuldades, inerentes a todas as nações da Europa atualmente, construiu uma sociedade de bem-estar e qualidade de vida, capaz de garantir até o "Dolce Far Niente" de seu povo.
 
Obs: Para quem duvida de que a Itália é um país produtivo, favor verificar a escala das nações mais ricas do planeta, na qual ela ocupa a 8.ª oitava posição em 2012  (e tudo isso apesar do doçura de não fazer nada de seu povo trabalhador, mas com limites).