No calor do momento, tentar escrever algo que seja isento não é possível. Pelo menos, não de minha parte pois, apesar de apartidário, há tempos sou declaradamente contra a corrupção, desde a época em que votava no PT, por acreditar que o partido apresentava-se como bastião central na luta pela ética e contra a desigualdade.
Nesse sentido, aos 17 anos fiz campanha voluntária para Lula, que acabou perdendo para o Collor, na eleição presidencial. Voltei academicamente à militância de esquerda em 2000, ironicamente na hoje chamada "República de Curitiba", até Lula ser eleito presidente.
Com advento do Mensalão, desci do barco. Abandonei com desgosto, pois não acredito que os fins justifiquem os meios. Lutar pela desigualidade, pelos mais pobres, vulneráveis e pela diversidade emancipatória da sociedade, não justifica alguém se corromper ou se locupletar do patrimônio público. Sem ética, não há combate à desigualidade, mas apenas uma troca de mãos dentre aqueles que se apropriam do patrimônio público.
No Coxinha Day, do dia 17/03/2016, encontrei-me com afinidade em volta de tantos outros, cuja maior bandeira era o combate à corrupção e contra a posse daquele que disse no passado: "rico quando rouba, vira ministro." Vi pessoas normais, trabalhadoras, nenhum representante da elite, mas sim, manifestantes contra o Petrolão e tudo mais que foi revelado na Lava Jato. Foi isso o que vi naquela noite. Não vi golpistas, não vi defensores de ditaduras, nem saudosistas de intervenções militares.
No Mortadela Day, do dia 18/03/2016, encontrei-me com muita gente da academia e dos movimentos sociais, com uma vasta diversidade de pessoas e tribos, com as quais tenho muito afinidade intelectual e pessoal. Aquela vibe da esperança, a crença emancipatória de busca de um mundo melhor estava ali, nos olhos daquela gente jovem presente.
Não obstante, senti um vazio de autocrítica, uma ausência de percepção ou de consciência coletiva contra as ocorrências de corrupção, como se nada de sério tivesse ocorrido no Brasil, como se fossem ocorrências pessoais e secundárias, ou ainda relativizações de que a corrupção sempre existiu de todos os lados e de que tudo não passa de uma manipulação da mídia golpista, das elites e do Judiciário.
Com um pouco de tristeza, vejo que ainda falta um certo grau de maturidade em parte da esquerda, necessário no entendimento de que, defender bandeiras sociais não necessariamente leva você a ter que compactuar ou aderir cegamente a todos os discursos e versões de pessoas ou partidos de sua preferência ideológica, sob qualquer circunstância.
Há que se fazer autocrítica, "com-pa-nheiro" (aquele que compartilha o pão), usar sempre o discernimento com criticidade, para saber separar o joio do trigo e entender que, em qualquer grupamento humano, há pessoas honestas, vocacionadas e leais, mas também, podem haver desonestos, criminosos, especialmente aqueles sedutores de massas, quando há poder e dinheiro público acessíveis.
Mais ainda, apontar e criticar a ocorrência de corrupção de pessoas ou partidos de esquerda, não faz você ter que se afastar dos seus ideais e ideologias, pois tais postulados existenciais estão acima dos indivíduos que as exercem. Não pode haver o receio de discordar, é necessário o debate e os questionamento sério sobre a ética no governo. Se não existe espaço para tanto ou não se permite, chute o balde, afasta-se e vá procurar pessoas melhores, que prezem os mesmos valores que você e sejam contra a corrupção.
Falta entender que, contra a corrupção, não são coxinhas versus mortadelas, são brasileiros de ambos os lados, lutando pelo bom uso dos recursos públicos para uma vida melhor da população e isso deveria ser fator de união, não de divisão. Quem divide as pessoas, tem o único propósito de ganhar e manipular com a divisão, criando um inimigo próximo para incentivar o confronto. Assim, ficam livres para desviar a atenção e continuar fazendo seus desmandos e crimes.
Coxinhas, Judiciário, Polícias, não são o inimigo. São pessoas como qualquer outro brasileiro, trabalhando, cumprindo suas obrigações e almejando uma vida melhor. O real inimigo é só um, quem rouba dinheiro público, quem se corrompe, esses sim, o foco a ser efetivamente atacado.
Sem deixar de lado a esperança, fui de embora do Mortadela Day ao som de Raul Seixas, numa música muito emblemática para os tempos atuais: "prefiro ser, essa metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo." Hora de transcender a velha esquerda e construir uma nova proposta democrática e progressista. Esse é o desafio à frente!
Algumas curiosidades:
a) Cerveja Heineken era vendida a R$ 10,00 pelos mesmos camelôs tanto no Coxinha quanto no Mortadela Day.
b) Os vendedores de bandeiras do Brasil, as vendiam por R$ 20,00 nos dois dias. A chamada de venda nos dois dias era a mesma: "compre sua bandeira para protestar contra o golpe".
c) Vi gente bonita e azaração em ambos os dias. Não vi violência ou chamadas para tal.
d) Por um lado, coxinhas entoavam "eu vim de graça!" e a estrutura do evento era de um carro de som, um palco e a presença dos bonecos do Pato, do Pixuleco e Dilmãe. Por outro, vários mortadelas vieram em frotas de ônibus, com estrutura fornecida pelos sindicados, como bandeiras, balões, carros de som, distribuição de material e pessoal de apoio.
e) O uniforme mais visto no Coxinhas Day era a camiseta de futebol da seleção brasileira. No dia do Mortadelas Day, coletes e camisetas de sindicatos e movimentos sociais.

