"Nos deram espelhos e vimos um mundo doente..." (Renato Russo). Não é preciso muito para identificar o mito inconsciente de que inovações tecnológicas são sempre benéficas e agregam vantagens à vida humana. Mas na prática, será isso verdade? Quando deram espelhos aos indígenas brasileiros no Descobrimento, tal troca não fora benéfica? Ou com ela a usurpação colonial das riquezas teve início? Quando hoje, dá-se ao Estado mais e mais poder de controlar a vida dos indivíduos por meio de tecnologia, quem terá vantagens nesses atos?
Exemplo disso é a atual e maravilhosa "carteira de habilitação digital nacional". Para saber mais, clique aqui. Trata-se de uma forma de centralizar informações e retirar a autonomia dos entes federativos estaduais, coisa que fere diretamente o pacto federativo constitucional. Mas, uma vez travestido em avanço tecnológico, passa e é aceito como se fosse algo vantajoso à sociedade, apesar de flagrantemente inconstitucional.
Mas você já refletiu qual vantagem seria esta? Quais os ganhos e as perdas, em termos de liberdades pessoais serão atingidas por este ato? Se você se contentar com o "espelhinho" ganho, de não precisar mais portar sua habilitação impressa (uau, que coisa importante!), em troca de permitir o controle unificado de sua vida ao Estado, verá que tal vantagem não é assim grande coisa assim.
Travestida em forma de aplicativo modernoso para o seu smartphone, tal tecnologia inverte ao cidadão o dever de manter sua documentação acessível, enquanto retira do Estado o ônus de fornecer o documento. Só por isso, tal ocorrência já seria questionável.
Por outro lado, retira do cidadão o poder de manter seu direito de dirigir, enquanto questiona, recorre e reage contra a chamada "indústria das multas", já que permite por mera ação virtual, suspender a habilitação e bloquear a carteira de habilitação do cidadão.
Lembrando como o uso da tecnologia "na indústria das multas" é feita para aumentar a arrecadação do Estado, utilizando-se sorrateiramente de meios questionáveis, como a elevação dos valores das multas, redução da velocidade das vias para forçar infrações ou criando novos tipos infracionais.
No mesmo sentido, o Estado vai buscar mais arrecadação com as multas, criando "produtividade" aos agentes encarregados de fiscalização, assim como delega sua tarefa de fiscalizar a empresas especializadas, as quais passam a ganhar porcentagens das infrações registradas.
Esse é somente um exemplo de como as chamadas "inovações tecnológicas" servem, no fundo, ao Controle Social do Estado. Uma forma de mais intervenção, empurrada "goela abaixo" da população, a partir de um modelo de consumismo de inovações tecnológicas, valorizado no mercado, mas incorretamente aplicado na seara pública, nesses casos onde estejam em jogo liberdades cidadãs.
Onde estão as tecnologias para se controlar o que cada político faz durante suas horas de trabalho? Não seria justo também um aplicativo capaz de permitir a qualquer cidadão tal forma de fiscalização direta? Esta, sim, uma boa inovação tecnológica esperada.
Ainda não está convencido dos riscos? Acho tudo isso bobagem paranoica? Estão assista ao episódio 3.1 da série Black Mirror e depois leia sobre como a China está a implementar essa tecnologia atualmente, para o controle da vida das pessoas nas redes sociais. Talvez você somente acorde quando isto chegar até você. Torcemos para que não seja tarde demais para a sua liberdade.