"Farmacopornografia", o insustentável controle das emoções pela medicalização da vida

A pílula da felicidade, desde o advento da fluoxetina, o mundo fármaco da psiquiatria ganhou um avanço no tratamento das dores humanas. Advindo do mito humano da busca de cura para todos os males, originado no Brasil pelas históricas "garrafadas milagrosas", levadas até pelos jesuítas para venda na Europa, atualmente tal mito serve ao capitalismo selvagem para acumulação das riquezas dos grandes laboratórios farmacêuticos.



Sem uma etiologia patológica determinada, a Psiquiatria faz uso dos chamados "transtornos" para classificar comportamentos e pensamentos humanos tidos por patológicos e, portanto, medicáveis a pretexto de este ser o melhor caminho de tratamento.
 

O problema começa na falta de limites claros entre as reais necessidades de tratamento, em casos efetivos de transtornos esquizoides, paranoides. compulsivos, ansiolíticos ou depressivos, e aquilo que faz parte natural da condição emocional humana, tal qual o luto, a tristeza, as crises existenciais de crescimento e as frustrações naturais da vida.



Desde Freud, é sabido pelo princípio do prazer, que o ser humano luta pelo prazer ou para afastar o desprazer, mas, rotular tais situações de desprazer normais da vida, enquanto depressão, abre a porta ao tratamento medicamentoso continuado e, assim, à utilização de antidepressivos de maneira também continuada, enquanto terapêutica à disposição da psiquiatria. 



Sem se atuar sobre a causa emocional do problema, para a qual o médico não é habilitado, não há clareza quanto ao término do tratamento. As únicas certezas estão no lucro dos laboratórios pela utilização continuada dos medicamentos e os efeitos neuroquímicos temporários causados aos pacientes, destacado o grande rol dos efeitos colaterais, demandando a utilização de outros medicamentos para corrigir sistemicamente o uso dos primeiros.



A insustentável "farmacopornografia" nasce nessa zona obscura, entre as necessidades reais de tratamento medicamentoso dos transtornos e os excessos da prescrição de medicamentos psiquiátricos de uso continuado.



O caminho da sustentabilidade para enfrentar tal situação, de crescente uso de medicamentos psiquiátricos e, correspondentes lucros da indústria farmacêutica, está no retorno às terapias existenciais comunicativas, psicológicas e psicanalíticas, na desaceleração do produtivismo e do consumismo, com a adoção do minimalismo essencial da vida e da reconexão com a natureza.


Nesse sentido, pesquisa realizada nos EUA obteve os mesmos resultados que o uso de medicamentos psiquiátricos na aplicação de um tipo de meditação diária, por 30 minutos, em pacientes pesquisados (http://oglobo.globo.com/saude/meditacao-tem-resultado-similar-aos-dos-remedios-para-ansiedade-depressao-11222530).



O problema é que o caminho da medicalização, o mito da pílula para todos os males, sobrepõe facilmente o enfrentamento das dores da existência de cada um. Mas viver é ter alegrias e tristezas, vitórias e frustrações, coisas inerentes à nossa condição humana, coisa que nenhum medicamento tem a condição de nos afastar.

Como mudar isso já?
a) antes de iniciar um tratamento medicamentoso psiquiátrico, tenha, ao menos, duas outras avaliações médicas sobre o assunto;
b) questione seu médico sobre os resultados pretendidos e a duração estimada do tratamento;
c) questione seu médico sobre a psicoterapia recomendada para ser realizar conjuntamente com o tratamento medicamentoso;
d) caso os efeitos adversos do medicamento prejudiquem sua vida, mais do que causam sua melhoria, ou se eles levarem você a tomar outros medicamentos, está na hora de procurar um outro médico e reavaliar a situação;
e) salvo casos graves, pergunte se você realmente precisa de um medicamento e quais outras opções de tratamento existem para lhe auxiliar neste momento;
f) frustrações, tristeza, coração quebrado e luto não são configuram depressão, de imediato, são situações da vida e que  indicam inicialmente uma psicoterapia, procure um psicólogo;
g) que tal mudar sua vida? Começar a fazer exercícios físicos, ir a locais positivos para ter contato com a natureza, passar algum tempo sozinho, criar hobbies prazeirosos, parar de consumir excessivamente, parar de gerar responsabilidades (dívidas, financiamentos, despesas), desacelerar, buscar um novo trabalho, começar a estudar novamente e abrir novas possibilidades, buscar a espiritualização.