Ideologias e a Busca Insustentável por um Discurso de Harmonização Mental e Afastamento das Angústias Existenciais

Faz parte do sentimento emancipatório humano o desejo de viver num mundo mais justo, igualitário e confortável a todos. Fazer isso acontecer na prática, no entanto, esbarra na complexidade da organização social e econômica das sociedades humanas. Cabe às ideologias o papel de propor saídas macro para essa busca por emancipação, a servir para apaziguar as angustias existenciais individuais.

Não obstante, a história da humanidade demonstra que, sob quaisquer tentativas até hoje colocadas em prática, em qualquer modelo social ou econômico haverá uma classe de vencedores, beneficiados diretamente por esse sistema, sob uma grande margem de batalhadores, que sustentam a base do sistema em troca de benefícios limitados, além daqueles que, numa margem ainda maior de pessoas, com acesso restrito a benefícios ínfimos, os párias, excluídos, cuja sobrevivência se faz sobre uma realidade precária e imutável.

Nas bases fantasiosas de qualquer ideologia, a margem de perdedores e excluídos é residual, uma vez que, mesmo sobre deformações existentes em qualquer modelo, acredita-se que o avanço das reformas, com o consequente o aprofundamento da ideologia na sociedade e na economia, o futuro será promissor.

A meta sempre é a criação de uma sociedade de bem-estar, que agregue aos batalhadores maiores benefícios e condições de integrar a chamada "classe média", enquanto modelo de sucesso e conforto existencial extensível a todos. Essa é uma demanda subjetiva de harmonização mental, especialmente quanto mais se convive com uma realidade injusta, violenta e desigual aos olhos no dia a dia.

O que não se discute nessas fantasias sociais, e daí a insustentabilidade de qualquer ideologia, é qual o limite possível de avanço, no consumo de recursos naturais e de espaço no planeta, hábil a implementar uma "classe média" de oito bilhões de pessoas ávidas ao conforto. Qual é a pegada ambiental, ou seja, as demandas ambientais possíveis e quantas pessoas podem ser atendidas nesse avanço da propalada classe média no planeta?

Há uma falta de visão da complexidade, como se os fins utópicos (a construção do bem-estar de todos) justificassem os meios ideológicos, uma miopia da realidade, capaz de harmonizar as angústias existenciais daquele que adere ao discurso, mas não de resolver efetivamente as reais questões dos limites materiais ao desenvolvimento humano no planeta.

O difícil é sair dessa compulsão pela repetição, como dizia Freud, desse modelo inconsciente de saídas mágicas reiteradas em face complexidade humana atual. A mente humana não é capaz de suportar por muito tempo o contexto do real, sem incorporar a ele algo de fantasioso para aliviar as tensões causadas pela dissonância cognitiva e a ausência de coerência entre o discurso e a realidade.

Daí a necessidade de purgar moralmente a si mesmo, coisa comum vista nos beneficiados maiores por qualquer sistema, em defender uma ideologia salvadora, que só existe na teoria, pois a prática requer a extinção da sua condição de beneficiado. Por exemplo, os ricos liberais caridosos, ou os da chamada "esquerda caviar", como ocorre no Brasil, que vão a Paris pensar nos problemas sociais e defender os pobres.

Mudar isso requer o fim da adicção às fantasias emancipatórias teóricas, substituídas pelas coerência das conquistas práticas no dia a dia, ser consciente em todos os atos, não vender ilusões e ir ampliando, pouco a pouco a sustentabilidade existencial, pela redução de seu impacto individual e pela colaboração na redução do impacto da coletividade. Como diz Freud, o único caminho real para a cura das angústias neuróticas, a sublimação colocada em prática.

Sustentabilidade não é caridade, nem autocomplacência teórica, é prática. Sustentabilidade se faz por medições auferidas da realidade e da coerência, na implementação de medidas efetivas de mitigação de sua participação no rompimento da capacidade de suporte, social, econômico, ambiental do planeta.

Inicialmente isso se faz pela aquisição da consciência da responsabilidade de agir sobre si mesmo, limitando o seu impacto individual na prática, sem defender discursos ideológicos vazios, colocando na prática o que se pode fazer no aqui e agora. Essa sim, é uma saída válida para a angustia existencial dos tempos modernos em que vivemos, quando a harmonização mental se faz não pela adesão a uma teoria salvacionista, mas sim por uma prática efetiva num sentido transformador da realidade em prol da sustentabilidade.