Num primeiro momento, o populismo de um governo confunde-se com uma pretensa preocupação social, voltada à redistribuição de renda e acesso a direitos sociais, para a promoção da igualidade, a mover a concepção do Estado do Bem-estar Social (Welfare State). Não obstante, a insustentabilidade desse modelo está na ausência de limites à expansão dos gastos do Estado, gerando um desequilíbrio monetário chamado de inflação.
Nesse sentido, a inflação nada mais é do que a expansão da base monetária de um país, sem a consequente produção de riquezas e de infraestrutura capaz de equalizar a oferta e a demanda geradas, pelo aumento do dinheiro em circulação.
Desse modo, o papel moeda impresso pelo Estado acaba por gerar um aumento generalizado dos preços, num ciclo vicioso em que, a cada aumento de preços se faça necessário um novo aumento na impressão de dinheiro, para pagar as despesas cada vez mais crescentes do Estado Social.
Esse desequilíbrio vivenciado na história na adoção populista de modelos de Estado Social gera insustentabilidade social, ampliando a situação de vulnerabilidade social, na perda equilíbrio dos preços e da capacidade de planejamento financeiro. Com isso, as empresas deixam de investir, visando minimizar os riscos e a sociedade entra em algum tipo de estagnação produtiva, a exemplo do que ocorre na Venezuela, com prejuízos sociais grandiosos à população.
A natureza ensina, assim como o câncer, tudo o que cresce ilimitadamente no mundo biológico tende a destruição de seu meio e, em decorrência, a sua própria extinção.
A resposta a esses modelos populistas geralmente vem por outros grupos políticos que pregam a austeridade, ora chamados, "liberais" que, na verdade, não necessariamente buscam a defesa da concentração de renda ou na restrição dos direitos sociais. Essa dialética de a favor ou contra o social geralmente não maniqueísta, serve ao controle social e ao marketing político dos populistas, que procuram colocar todos os seus opositores no mesmo rol fantasioso de inimigos da população.
Entretanto, mesmo em um grupo liberal extremo, sua ideologia ortodoxa busca, no máximo, o afastamento da intrusão do Estado na economia, com a redução de impostos e despesas estatais, para que a própria sociedade possa, perante uma liberdade máxima econômica, para florescer por si própria. Claro que, nesse outro extremo, a história econômica das nações também demonstrou suas falhas de insustentabilidade, pela concentração de riquezas e acentuação das vulnerabilidades sociais.
Mas em grande parte dos grupos moderados, o que se busca, é a equalização dos gastos públicos, sua racionalização para evitar a inflação, preservando assim, o poder de compra da população em geral, ao mesmo tempo em que garante o funcionamento básico do serviços públicos prioritários à população. É a chamada Terceira Via, que busca conciliar limites fiscais e de gastos ao Estado, conciliando-os com distribuição de renda e garantia de acesso a direitos sociais.
Isso pode ser observado vários países europeus, onde o modelo dessa Terceira Via foi idealizado e continua em voga, apesar da crise atual, que tem muito mais a ver com a dinâmica de ajustes necessários ao modelo com o tempo, do que com a falência da proposta em se manter o equilíbrio fiscal, necessário à sustentabilidade. Vide o exemplo da Inglaterra e de alguns países nórdicos.
O erro dos populistas e a insustentabilidade econômica de suas propostas no médio e no longo prazo está na falta de ausência de limites à expansão dos gastos públicos, como se imprimir dinheiro e ampliar a renda e o acesso à direitos sociais fosse algo mágico, feito sem consequências reais. Está claro que a inflação nada mais é do que essa consequência real dessa política, que a todos atinge e que aos mais pobres prejudica de imediato, pois sua situação de vulnerabilidade ao aumento de preços de produtos básicos é maior.
O exemplo da Grécia em 2015 é um bom estudo de caso sobre o assunto. Sem o mínimo de austeridade e limite de gastos públicos há muito tempo, a Grécia perdeu sua capacidade de honrar suas despesas públicas com seguridade e serviços, por seus próprios recursos advindos dos impostos arrecadados e depende, há anos, de financiamento internacional para manter suas contas em dia.
Como não pode emitir dinheiro, já que ,faz parte da Zona do Euro, controlada pelo Banco Central Europeu, a quem cabe a exclusividade da emissão de moeda, acaba por estar em condição de falência técnica, em razão do fim dos empréstimos internacionais, cujo retorno só ocorrerá se cumpridas as exigências dos credores internacionais por reformas de austeridade.
Detalhe importante, quem são esses credores internacionais? São agiotas do dinheiro alheiro? Não, são os demais países da União Europeia, cujos empréstimos foram dados a taxas generosas para permitir o avanço e equalização da Grécia com os níveis de qualidade de vida com os demais. São recursos retirados dos impostos pagos pela população trabalhadora dos demais países.
Diferentemente do Brasil, que andou emprestando dinheiro para ditaduras falidas sobreviverem, o pressuposto para acesso a esses empréstimos da União Europeia é o respeito à democracia, a ampliação da proteção dos Direitos Humanos e dos Índices de Desenvolvimento Humano e Sustentabilidade.
As únicas saídas que restaram para a Grécia foram de fazer as reformas e poder pedir mais dinheiro exterior emprestado à União Europeia ou, sair do Euro e criar sua própria moeda, a qual poderia imprimir livremente no curto prazo, gerando processo inflacionário imediato nos preços.
Sustentabilidade econômica requer limites. Limites são escolhas que implicam não necessariamente o abandono da missão estatal em produzir bem-estar social à maior parte da população, mas uma opção pela qualidade e não apenas a quantidade do aumento de despesas públicas.
O Brasil precisa fazer seu dever de casa. Inflação, queda do PIB e desemprego nada mais são que uma resposta da insustentabilidade econômica dos últimos governos. Analisar esse quadro sem paixões políticas e ideológicas é necessário para que se encontre uma terceira via de equilíbrio no gasto público, com responsabilidade fiscal, capaz de produzir sustentabilidade econômica aliada à construção de bem-estar social no longo prazo.
Pergunta: qual modelo de país você desejaria viver hoje e no futuro? Em quaisquer escolha, sempre haverá limites a serem cumpridos, pois qualquer contrato social sustentável não se faz somente com direitos, mas também com deveres a todos.