Não poderiam existir "heróis sem caráter", sem existir os correlatos subservientes. No país do "jeitinho" e da "Lei de Gérson", macunaímas de todos os tipos ganham a vida e se locupletam utilizando-se não só do coitadismo, mas também de uma outra arma à sua disposição: o deixa para lá.
O deixa para lá é uma prova da insustentabilidade social, da perpetuação da desigualdade e do mal caratismo e da existência de uma Estado omisso, que não presta serviços essenciais de acesso à Justiça e segurança à sua população.
Com o deixa para lá, os subservientes acabam por aceitar os prejuízos decorrentes de contratos não cumpridos, mal cumpridos ou dívidas, as quais não receberam e, por não saber como agir (ignorância e analfabetismo funcional generalizado), ou por insegurança e vulnerabilidade, não poderão exercer os direitos relativos a essas demandas.
O deixa para lá, a serviço de macunaímas e psicopatas em geral, é um prato cheio, um meio de vida, uma forma de lidar criminalmente com a realidade e distorcer os fatos a seu favor e ganhar vantagens com isso.
Conviver num país desses implica em três posicionamentos figurativos possíveis, ou você é um dos lobos (macunaímas e psicopatas em geral), um dos cordeiros (subservientes dóceis e lesados) ou cães pastores (com todo o custo social de ser assim).
Até os pastores acabam por observar limites à sua atuação, optando, por vezes, em deixar para lá, para que lobos e cordeiros sigam suas sinas em interprisão existencial. Há coisas contra as quais não se pode concordar, mas conseguir atuar em forma contrária ou resolver essas relações insustentáveis, já é outro negócio.
Além do confronto direto com lobos, cães pastores ainda tem que cuidar da reação dos cordeiros que, em efeito manada, podem, ao contrário do que se esperar, contribuir com seus algozes, pois é com eles ou com seu discurso, com quem mais se afinizam e tem familiaridade.
Qual semelhança com a realidade é mera coincidência, não é?
Qual semelhança com a realidade é mera coincidência, não é?