O economista indiano, Amartya Sen, ganhador do prêmio Nobel de Economia por sua obra "Desenvolvimento Enquanto Liberdade" e criador do IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), defende enquanto sua principal tese a hipótese de que é dever do Estado permitir aos cidadãos liberdades qualificadas, a fim de que sejam independentes e possam construir seus próprios caminhos. Mas o que isso tem em relação ao perfil dos manifestantes do dia 13/03/2016?
Segundo o Datafolha (clique aqui), na manifestação da cidade de São Paulo, na avenida Paulista, 57% eram homens e 43% mulheres. 77% de todos possuíam curso superior. 50% afirmaram possuir renda entre 5 (5x880=R$ 4.400,00) a 20 salários mínimos (20x880=R$17.600,00).
Pois bem, com esses dados é possível entender que, o maior substrato presente na manifestação era de classe média e, não de elite, como se tenta apregoar levianamente. Outrossim, se o próprio governo se vangloria de ter soerguido 50 milhões de pessoas à classe média, qual o problema de parte dessas pessoas não concordarem com os rumos atuais da política e da economia? Seriam devedores eternos de políticos populistas?
Outrossim, caracterizar quem possui diploma de curso superior preconceituosamente enquanto elite, vai contra a própria proposta educacional do governo, de facilitar o acesso à população ao ensino superior. Se o acesso ao ensino superior significa mais consciência política, isso é inerente ao processo educacional construído. Ou o governo espera que diplomados em ensino superior sejam formatados mentalmente e atuem enquanto cordeirinhos sempre a favor do sistema?
De outro modo, quem pode afirmar que a presença de um número menor de mulheres não foi decorrência de toda a propaganda de terror feita pelo governo na semana anterior, aventando a possibilidade de conflitos de grande monta nas ruas?
Por fim, não seria a educação a melhor forma de soerguer o indivíduo, para que o mesmo possa obter melhores oportunidades na vida, logo, ter melhores ofícios e maior renda e assim, possibilitar maior dignidade, independência e conforto para si e para sua família?
Quando Amartya Sen formulou o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano), que inclui a avaliação de três variáveis (renda, longevidade e nível educacional) para se saber o grau de desenvolvimento de uma população, visava incentivar as políticas públicas dos Estados a produzir liberdades qualificadas em seu povo.
Por liberdades qualificadas entenda-se a condição (econômica, sanitária, social, de segurança pública, educacional) do indivíduo. Com essas condições mínimas garantidas pelo Estado, cada qual pode construir sua independência para conduzir sua própria vida, da maneira que bem lhe entender e de acordo com sua própria consciência e individualidade. Logo, quando mais liberdades qualificadas, mais independência e mais individualidade em prol dos próprios desejos na busca da sua própria versão de felicidade.
Quando as manifestações demonstram que parte dos presentes possuem as condições para desempenhar com independência suas opiniões e desejos sobre a economia, a política e a ética, sem estarem ligados a um determinado partido político e sem receber qualquer benefício direito ou indireto com suas participações, isso não seria um indício de que essas pessoas possuem liberdades qualificadas?
Nesse ponto, não eram as elites que estavam presentes às manifestações, mas uma amostra de que o incremento das liberdades qualificadas podem produzir numa sociedade democrática. Ou seja, quando mais indivíduos libertos, conscientes e independentes possam construir livremente seus próprios rumos e opiniões, sem dependências econômicas de populistas, fanatismos messiânicos ou fascínios megalomaníacos sobre o papel Estado, mais a sociedade caminha para seu grau amadurecimento e complexidade democrática entre seus indivíduos.
Coletivismos só atendem aos interesses individualistas e nem sempre democráticos de quem está no poder, transformando países em áreas devastadas (vide Venezuela, Cuba e Coréia do Norte). Indivíduos livres e independentes, no uso de suas liberdades qualificadas garantidas pelo Estado, são a base de qualquer sociedade e país desenvolvido (escolha qualquer exemplo), onde sempre há um grande contingente de indivíduos de classe média, com renda e discernimento, e logo independência de opiniões, a compelir o governo na condução ética da política e do Estado.
Daí que, se você quer um país melhor, pare de lutar pela divisão de classes, a comprar o discurso do ódio propagado e ponha-se a serviço maior de ideias progressistas em prol de construir liberdades qualificadas a cada vez mais e mais pessoas. Só assim será possível deixar-se um país melhor às futuras gerações.