Segunda-feira, o Dia Seguinte: seremos felizes para sempre?

A Psicanálise, apesar de não ser considerada uma ciência, trouxe conceitos básicos importantes. Três deles aqui devem ser utilizados: fantasia, catarse e princípio da realidade. Na fantasia, há um distorção da realidade, por uma avaliação individual ou coletiva parcial ou orientada. Na catarse, há um mecanismo de descarga instantâneo das frustrações, geralmente provocadas quando as fantasias são contrapostas com as demandas da realidade. Pelo princípio da realidade, toma-se consciência do real estado das coisas e isso é um caminho para a maturidade.

Caminhamos para um final de semana de catarse coletiva, de realização, dentro de regras democráticas estabelecidas na Constituição Federal, da votação pela abertura ou não de um processo de impeachment contra a presidente da república.

Há duas soluções possíveis após a votação no domingo. 1. Os votos necessários serão obtidos, logo, o processo será instaurado e enviado ao Senado Federal. 2. Os votos contra a abertura serão suficientes para barrar o processo.

Nos dois casos, há um choque de fantasias entre grupos sociais antagônicos, que culminaram em catarse instantânea, por um lado, e frustração, por outro. Domingo então, terminará com comemorações, por um lado e com decepções, por outro.

Mas o maior desafio começará na próxima segunda-feira, quando os estragos de qualquer das decisões iniciarem seu processo de clareamento, pois aí entra em curso o princípio da realidade para todos, quando o peso da vitória também será sentido pelos vencedores.

Assim como não há almoço grátis, na gíria popular, não há vitória sem custos, especialmente sociais. Um país parcialmente dividido precisa ser apaziguado. Soluções, por vezes, dolorosas, em termos de cortes de gastos públicos, não surfarão na onda da vitória, pois seu custo será pago por todos, em qualquer das hipóteses.

Nesse sentido, há que se ter consciência antecipada de que, independente das posições assumidas, o país está imerso numa grande crise econômica e social, sem precedentes históricos e, no caminho de correções e ajustes, haverá mais decepções e desgastes antes que se possa ver alguma fagulha de raio solar após a tempestade.

Por isso, nesses momentos de ebulição, há que se ter calma, equilíbrio e mediação. De nada adiantará qualquer tipo de exaltação, pois a inevitabilidade do princípio da realidade já está precificada no curto prazo e, todos, vencidos e vencedores, deverão arcar com os custos de todas as disrupções ocorridas até o momento.

Reconstruir pontes é essencial, assim como estabelecer novas fantasias de que dias melhores virão, cuja materialização real é de interesse de todos, independente de suas bandeiras e isso somente poderá ser obtido com algum grau maior de paz e concórdia social.