O Mal-estar Civilizatório

A obra "O Mal-estar na Civilização", escrito por Freud em 1930, discorre sobre as origens da "infelicidade", enquanto um sentimento de mal-estar existencial que somente começou a ganhar corpo com a modernidade e com o nascimento da figura social do indivíduo livre e determinante de seu próprio destino.

Ao ganhar sua prerrogativa de liberdade, autonomia e individualidade, perante o modelo liberal de Estado e com o avanço do modelo econômico e da prosperidade das nações, surgiu espaço para esse indivíduo tornar-se um ser desejante.

Ser desejante no sentido de dar vazão às suas demandas existenciais, materiais e imateriais, na sua busca por uma completude e uma sensação de contentamento nem sempre encontrável, mas sempre em perspectiva de se encontrar. 

Porém, ao ter essa liberdade de desejar e um amplo alcance do objeto a ser desejado, abre-se a porta não só para a autonomia das escolhas, mas também para a responsabilidade por elas, no seu sucesso, no seu fracasso e também na frustração por seu atingimento não condizer com a fantasia esperada.

Obra intitulada em Alemão como "Das Unbehagen in Der Kultur", o sentido da tradução talvez tenha buscado na palavra "civilização", o termo ideal para identificar o sentido amplo de cultura (kultur), enquanto disseminadora desse espaço de mal-estar vivido na pós-modernidade. 

Civilização compreendida pelo conjunto de modelos, regras escritas, costumes, linguagem, moral, religião e todo os demais tipos de interferência prévia ao surgimento do sujeito que, pelo próprio termo, se sujeita desde o nascer a ser aculturado para conviver nessa determina sociedade.

Uma vez introjetado, tal modelo civilizatório atuará sobre sobre sua instintividade e também sobre o seu eu, o chamado Ide, esfera inconsciente responsável pela elaboração do desejo e das pulsões em prol da sua realização, em confronto com forças contrárias e castradoras, a outra esfera inconsciente introjetada, chamada de Superego.

Dali o choque contínuo e onipresente, retratado por Freud, entre essa forças introjetadas nunca solúvel, reprimido ou canalizado, capaz de expressar contextos de mal-estar nunca antes possíveis de serem vividos e cada vez mais ressaltados. Você é livre para sofrer ou para canalizar seus desejos às realizações possíveis do viver em sociedade.

Por seu turno, afetividade e sexualidade acabam também relegadas a um controle cultural rígido, em modelos fechados de realização, cujo meio de fuga passa a ser a liquidez e superficialidade cada vez maior das relações amorosas. 

Daí mais um passo no caminho do mal-estar, pela dificuldade cada vez maior de realizar-se no e pelo amor romântico, tido talvez como mais uma das invenções modernas mais demandadas, amparado no dogma da monogamia e do rígido controle dos corpos, dos sentimentos e dos pensamentos, que devem ser exclusivos e fechados ao objeto amado.

Sem dúvida, desde a modernidade vive-se momentos desafiadores e de transformação, num conflito entre indivíduo e sociedade, mediado por modelos culturais cuja única saída está em produzir neuroses para se poder adaptar ao mal-estar vivido.

Talvez nessa era líquida, felizes somente serão os psicóticos e os psicopatas, cuja fantasia de onipotência e de capacidade de domínio do mundo por meio de suas revoluções, internas e externas, permita-os respirar fora dos controles, com suas disrupções de pouca efetividade no conjunto da "kultur" instalada.