Na obra "O Mal-estar na Civilização", Freud traça um panorama de como a cultura da adaptação social, a partir da medição do desempenho individual, acaba por gerar paradoxalmente, de um lado, um padrão de ordem e organização a ser seguido e, por outro, um padrão de insatisfação crescente, na medida em que os padrões de resultados a serem alcançados são crescentes e modificáveis de tempos em tempos.
Como Freud demonstra, nossa cultura civilizatória elegeu o progresso sobre o mundo natural, a busca de soluções para os sofrimentos humanos, enquanto meta de produção da felicidade em escala global. Até aí, o desempenho é uma busca de todos por todos, uma tentativa de adaptar a natureza às demandas de conforto e bem-estar da espécie dominante sobre o planeta.
A partir do momento em que as metas de desempenho passam a fazer parte do cotidiano do indivíduo, que tem sua vida medida pelo sucesso material obtido dentro de um conjunto de bens ou posições sociais que adquire, o foco muda e o contexto de felicidade individual passa a ser contaminado.
Surgem neuroses de adaptação uma vez que nem sempre é possível se atingir o desempenho esperado na sociedade de massas. O sucesso é inerente a uma pirâmide naturalmente excludente e hierarquizante social, pois os diferenciados serão sempre aqueles objetos pouco acessíveis economicamente. Logo, não há como existir igualdade perante a complexa diversidade e os limites inerentes aos bens materiais, como previa erroneamente os fracassos comunistas.
Em todo o conjunto social, sempre haverá o predomínio de alguns e, porque não dizer, o sucesso, daqueles cujo desempenho os permita exercer os cargos de poder e de acesso aos recursos econômicos. Aos demais, restará, como sempre, a disputa pelos demais postos subalternos, dentro de quesitos de desempenho e adaptação, ora mais organizados (a lei do mercado), ora mais primitivos (a lei da força).
Mas como trabalhar com as demandas humanas por felicidade nesses conjuntos neurotizantes. O primeiro passo é abandonar coerentemente a sua busca por sua adequação ao modelo de desempenho hierarquizado. Há que se avaliar individualmente, a partir de suas necessidades de mundo e de construção da realidade, quais suas dependências conscientes e inconscientes aos modelos impostos de consumo e de realização social.
Deixar de lado os modelos e escalas hierárquicas estabelecidas, significa deixar de ter que se esforçar além do necessário à sobrevivência e conforto,por recursos, para consumir símbolos de poder e de status de desempenho social. Pode-se, com isso, preservar tempo útil à construção de seus desejos individuais de realização. Aquele desempenho pessoal que só interessa a você atingir e que, por ter valor subjetivo, é algo personalíssimo, já que tais desejos são seus e não os impostos pela cultura dominante.
No fundo de tudo, deixar de lado a cultura fálica do desempenho expressa na lutar de poder de todos contra todos e focar-se na sua própria felicidade.
No fundo de tudo, deixar de lado a cultura fálica do desempenho expressa na lutar de poder de todos contra todos e focar-se na sua própria felicidade.