Tempos atrás, em texto interessante sobre as decisões públicas no mundo contemporâneo, J.J.Gomes Canotilho escreveu como não há saídas capazes de agradarem a todos os setores e matizes da sociedade, quando o assunto leva em consideração interesses múltiplos em jogo, devido à complexidade de valores, desejos e posicionamentos ideológicos diversos, divergentes e excludentes.
Quando temas espinhosos como reforma previdenciária vem em pauta, ânimos são exaltados e, sem o devido entendimento do real alcance do porquê de tais atos, falta o discernimento e a racionalidade para se enfrentar tais temas, em busca das melhores saídas para tais propostas.
No fundo, falta repertório subjetivo enquanto conteúdo (informações compreendidas e disponíveis) e enquanto instrumento (capacidade crítica, lógica e argumentativa) de análise racional. Sobram motivações emocionais, focadas em maniqueísmos grosseiros, esquerda/direita, social/capital, bem/mal, como se tudo pudesse na vida ser um fla/flu, binário, muito aquém daquilo descrito por Canotilho.
Essa deficiência cognitiva de repertório pode ser superada a qualquer momento, desde que melhores escolhas sejam feitas, especialmente no tocante à decisão por individuação e autodeterminação de cada pessoa. Este é um processo que leva tempo e investimento individual em estudo e compreensão da realidade, pois amadurecimento requer um contínuo de ações mentais conscientes. Requer-se, aos poucos firmando convicções focadas na capacidade de suporte no real e ir libertando-se de ideologias e grupos sociais direcionadores de pensamentos.
Liberdade de pensamento vai além de se achar livre para pensar. Liberdade de pensamento requer firmar convicções individuais do conhecimento obtido de várias matizes, observar os prós e contras dentro do todo complexo e construir pensamentos a partir daquilo que seria suportável socialmente e melhor para todos, em face das possibilidades reais.
Liberdade de pensamento, ao contrário do arrebanhamento do pensamento, acaba por individualizar a pessoa de tal forma que se rompe seu elo de submissão ao grupo social de afinidade, de tal modo que seus posicionamentos intelectuais a tornam um "outsider" ao coletivo. E há um preço a se pagar quando se faz este movimento de individuação, em termos de perda de convivência de amigos, colegas, por quebra dos vínculos aos repertórios monocórdios seguidos cegamente.
Especialmente entre jovens, atingir essa liberdade de pensamento é uma antecipação de maturidade intelectual, pois, nesta fase, o que se espera são os pensamentos ainda efetivados sobre repertórios ainda em construção, o que seria normal. Avançado é atingir essa individuação de vários repertórios mentais nesta faixa etária, com o aumento em quantidade e qualidade das cognições sobre o mundo, em instrumentalidade crítica de análise da realidade e em capacidade e discernimento de construções soluções viáveis e sustentáveis para os dilemas complexos da vida humana.
Sem isso, como dizia Freud, o inconsciente produz uma inevitabilidade às escolhas, um sonambulismo acordado, um mundo de fantasia a guiar a vida ao repertório disponível no meio social, cujo encantamento nada mais é do que uma ilusória sereia em alto mar, sem se saber exatamente o porquê e o alcance das coisas.
CANOTILHO, José Joaquim Gomes. "Privatismo, associacionismo e publicismo no Direito do Ambiente: ou o rio da minha terra e as incertezas do Direito Público". In: Textos "Ambiente e Consumo", Volume I. Lisboa: Centro de Estudos Jurídicos, 1996.
