A Mitomania como Recurso Ideológico e a caverna de Platão

Mitomania é a mania de mentir, compulsivamente. O mitomaníaco mente continuadamente e isso é seu "modos operandi", maneira de viver e se comunicar. A pessoa tem prazer em mentir, mesmo que no fundo, saiba que isso pode ser prejudicial a si mesmo. A etiologia do problema é multifatorial, podendo ser desde a compensação de uma baixa-estima, até algo mais grave, como um transtorno de personalidade antissocial (ou seja, uma sociopatia).

Viver em sociedade, implica que você também não pode fazer o extremo oposto, dizer a sua versão da verdade na cara de todo mundo, forçando assim, com agressividade, que as pessoas vejam seus pontos falhos, suas dificuldades e deficiências. Há um nível limite na comunicação, de respeito à dignidade alheia e às suas qualidades e defeitos, sem o qual, o resultado seria conflitividades constantes e, no fim, as pessoas querendo distância de você.

Logo, o que foi dito acima não se trata de mentir. Trata-se de não relevar e apontar aspectos que não seriam oportunos ao contexto interativo pessoal. "Sincericídio" é tão patológico, por sua agressividade, quanto a Mitomania.

Em outro sentido, por vezes, a mentira é utilizada para evitar a piora de certas situações já agravadas. Por exemplo, em face de um paciente que já sabe ser terminal, "aliviar" dados sobre seu quadro em deterioração seria até justificável e humanamente desejado. 

Mas fora esses casos bem específicos, a mentira passa a ser algo a ser repelido, porque expressa uma falha de caráter do mitomaníaco. Na melhor das hipóteses, um surto histérico na tentativa de manter uma fantasia e afastar-se da realidade desconfortável à frente.

No caso do histérico em surto histriônico, a mentira é contada para si mesmo, pois ele precisa acreditar naquelas palavras e naquela explicação para aplacar o desconforto perante o real, para o qual não suporta reagir ou observar. Como a mentira não resolve o problema de mal-estar contínuo dos dados da realidade, ele introjetará cada vez mais mentiras, num ciclo contínuo de reforço das fantasias, cada vez mais e mais distantes do esperado senso crítico e autonomia, enquanto indícios de saúde mental.

Chega-se ao ponto de se vivenciar o chamado "transe ideológico", quando o indivíduo em surto histriônico rompe com a realidade e passa a viver em um mundo paralelo à realidade, concomitante ou não, com o uso de substâncias psicoativas e cercado de pessoas dentro da mesma bolha que se retroalimentam. O problema desses casos de hipnose coletiva, está no fato de que, o quadro é de tamanho reforço entre os pares, a ponto de aprisionar suas mentes, que passam a não elaborar criticamente saídas pessoais a este quadro. 

O teste de realidade deste quadro de mitomania histérica se faz pela forma como o indivíduo em transe lida com a diversidade, com o oposição ao seu pensamento e com aqueles que não aderem ao seu modo de ser e de pensar. Se há agressividade, ausência de respeito na diversidade e autonomia de outros pensamentos, se há uma necessidade de impor ao outro sua visão de mundo, o quadro estará instalado e precisa ser revisto com urgência a partir da autocrítica.

Aqui se pode evocar o "Mito da Caverna" de Platão, onde presos acorrentados de uma caverna só viram, por anos, as sombras do que existia fora dela. Quando um deles consegue fugir e ver como está o mundo afora, retorna e tenta convencer aos presos de que tudo está muito diferente do que imaginavam e os quer libertar. Acaba sendo assassinado por isso. Até que ponto o apego às cavernas ideológicas não transforma seres humanos em prisioneiros de discursos prontos e acabados, a ponto de matarem quem os confronta? Revoluções, ditaduras e genocídios apontam neste sentido.

Já no caso de sociopatas com quadro mitomaníaco a partir de diagnóstico de transtorno de conduta antissocial, a questão se complica, pois a mentira é instrumento de realização de seus desejos perversos. Ela faz parte contínua de sua estratégia de conquistar mentes, produzir alienação e assim, gerar exércitos de histéricos em transe ideológico, a seu favor. Aqui o uso de recursos de linguagem, a distorção dos fatos, a demarcação de um duplipensar (ausência de coerência), é conscientemente planejada e coloca em prática. Conquistar mentes e corações e os colocá-los submissos a seu serviço.

Daí vem à tona a discussão sobre os prazeres do mentir. Há o prazer daquele que possuir baixa-estima e usa a mentira contínua para se sentir aceito e amado. Há o prazer do histérico, que mente a si mesmo para afastar o mal-estar do mundo real à sua frente. Há o prazer do psicopata, que mente para conseguir o que quer. Há o prazer do sociopata, que mente para colocar seu projeto de poder em curso.

Mas existira um prazer de dizer a verdade? Sim, existe e muitos assim se expressão em equilíbrio e bem longe de qualquer quadro de perversão, individual e social. O problema é que, dizer a verdade, posicionar-se, significa abrir mão de ser aceito e amado por determinados grupos, ostentar e sentir-se estar fazendo o bem, dentro da ideologia ventilada principalmente nos meios educacionais. A quem está maduro e busca sua individualidade isso não é um problema. Porém, aos mais jovens, ser banido do grupo maior por pensar diferente e se posicionar pode ser problemático e difícil de ser efetivado, enquanto não adquirem condições e estima suficiente para serem donos de seu próprio destino (e isso leva certo tempo).

Se você detectar alguém em mitomania perto de você, o ideal é afastar-se e procurar melhores companhias, pois tentar demonstra a verdade a ele não resultará em cura da neurose adquirida. Aos ideologicamente imersos num plano fantasioso da mentira, só o tempo e, quem sabe, as castrações e desilusões perante os discursos, possam permitir seu retorno à realidade. Aos psicopatas e sociopatas, ter seus crimes desvendados e condenados é a melhor solução.