A Perversão do Contrato Social

As revoluções disruptivas sempre começam com uma proposta fantasiosa de amor e terminam com dor. Isso acontece porque, ao se romper o tecido social, a partir de provocar polos antagônicos ou dualidades (amor/dor); (paz/guerra); (ordem/desordem); perde-se o centro da regra maior, abstrata e hipotética fundamental, a unir as pessoas em paz: o Contrato Social.
Sem o Contrato Social, retornam todos ao estado da natureza, onde cada um, por sua liberdade irrestrita e interesse egoísta, faz o que desejar, sem a mediação das regras estabelecidas, importantes por fixar critérios objetivos de acesso aos prazeres do Ide (instância inconsciente do desejo), resultado disso: a guerra de todos contra todos, como previa Hobbes.

Contrato Social, no seu sentido básico, é a concessão de parte desta fantasia de liberdade irrestrita e consequentemente castração real dos interesses egoístas, em prol de um bem-comum, que é a paz social, materializado a partir dos limites criados por normas jurídicas e pela coerção do Estado em aplicá-las, capazes de permitir a vida organizada em sociedade, por meio de deveres. 

Para a Psicanálise, trata-se de um processo civilizatório interno, onde o Superego (a outra instância inconsciente, a do controle moral e das regras) é chamado a dosar as demandas do Ide e assim, permitir a castração, suficiente à vida em equilíbrio mental e emocional. 

Fora do equilíbrio de tais instâncias internas, observa-se ou a depressão da pessoa, pelo excesso opressivo da manifestação do Ego (eu, instância consciente) afeita somente às regras introjetadas; ou, por outro lado, a perversão, pelo excesso libertino da manifestação do Ego à busca por prazer, sem limites e em desrespeito às regras.

Quando há o foco na perversão do Contrato Social civilizatório, há dois resultados a serem observados na história da humanidade e geralmente subsequentes: surge uma desordem social grave e crônica. Muitas vezes, ela é planejada por engenharia social visando exatamente isso, provocar o caos para que, na sequencia, imponha-se o segundo estágio, uma nova ordem totalmente opressora e oposta ao caos. 

Na prática, essa engenharia social manipuladora estimula todo o tipo de demanda libertina, a partir de ressaltar insatisfações de todos os tipos, focando-as em desejos de cada indivíduo, sem ressaltar quaisquer responsabilidades ou deveres para tanto. Trata-se da fantasia de um mundo de direito sem deveres: ou seja, o retorno ao estado da natureza

Poucos percebem essa engenharia social, uma vez que ela atua sobre as emoções e insatisfações humanais, naturais e insuprimíveis, a criar uma histeria coletiva em prol de cada vez mais direitos, na fantasia de que seria possível construir o paraíso na Terra, bastando para tando a boa vontade dos governantes. Como se vê, trata-se de um pensamento infantil de onipotência e negação da realidade, de fácil assimilação por personalidades imaturas e frágeis a tais manipulações discursivas.

O pensamento mágico de existir um caminho fácil para os problemas sociais nega o papel da castração, enquanto desforço necessário e exigível a todos os indivíduos, para manter a vida em civilização. Por isso, é mais fácil ser revolucionário por um pretenso paraíso de direitos, do que encarar a realidade e os próprios limites individuais em realizar-se em face das regras.

Daí a perversão do Contrato Social em forma de movimento lento, induzido e que produzirá, ao final, a fase da depuração, quando os indivíduos de manobra são descartados pelos perversos no comando desta operação de engenharia social, que assumem o poder e instauram uma nova ordem opressora e bélica, já que não terá como atender na realidade as promessas do paraíso em terra. 

Surge um novo Contrato Social, só que voltado a outra forma de bem-comum, aquele que transforma todos em súditos ou servos com direitos iguais, mas mínimos, se comparados aos detentores do poder, os únicos a manter a liberdade ilimitada e poder atender todos os seus prazeres.

Muitos vão dizer, "mas deturparam o Socialismo novamente". Enquanto você acreditar que Socialismo é esse paraíso, onde não existem deveres e castrações (inclusive suas), continuará a acreditar nesta fantasia distópica.

Não existe almoço grátis. Ou você contribui à civilização e castra-se (neurose) ou ainda estará em estado mental revolucionário (psicótico), voltado a perversão das regras e das instituições, como se fosse possível retornar ao estado da natureza, sem limites aos seus desejos. 

Isto não existe e tomara que esta lição seja aprendida enquanto ainda há tempo para o amor e a assunção de seu papel civilizatório em deveres e castrações. Como diria Freud, ou se aprende assim, ou se aprende pela dor. Trata-se de um conjunto de escolhas que levam às suas consequências. Se quer construir um mundo melhor, comece pelas suas castrações e assunção deveres de manter a ordem civilizatória à sua volta.