Para a Psicanálise, "não fazer mal a si, nem a outrem" é o indício basal de saúde mental, a ser verificado caso a caso, para se avaliar o seu nível equilíbrio ou de pulsão destrutiva. Ou seja, a partir de como o indivíduo lida com suas "sombras da maldade", existentes em sua personalidade, é que será possível avaliar sua estruturação psíquica para melhor ou para o pior. O detalhe maior desta constatação será: a maldade está presente no inconsciente humano e saber lidar com ela é essencial à saúde mental e social de todos.
Para Jung, as sombras também fazem parte de qualquer personalidade humana, pois todo o acervo cultural da sociedade, é introjetado a cada nova vida, que passará a desenvolver-se com esses dados pré-existentes, a direcionar cada qual ao seu próprio destino, conforme as construções vivenciadas na historiografia pessoal.
Logo, o problema não está em possuir a maldade inconsciente, mas sim, qual direcionamento será dado a ela, durante o desenvolvimento e individuação do seu self (eu consciente). Ou seja, em como os limites e castrações serão construídos em cada um, de forma que a maldade não domine sua estrutura da personalidade e a torne um "perverso", susceptível de causar mal a si e aos demais.
Claro que, por mecanismos de defesa do ego, presentes em qualquer pessoa, será natural negar a presença da maldade em si. Você, leitor, a título de auto-avaliação, consideraria a presença da maldade em si? Identificaria suas ações, pensamentos e sentimentos capazes de causar mal a si ou a outrem?
Se você se irritou de algum forma com as perguntas acima, isso seria um indício bem interessante dessa forma de mecanismo de defesa, na tentativa de afastar agressivamente tal condição humana de sua própria presença dela. Negar sua inconsciência, mesmo sem alteração emocional, também não é garantia de que suas defesas inconscientes não tenham entrado em campo, a partir do recalque perante a temática.
Quem mais nega a presença da maldade em si e mais se esforça para dizer e ostentar ser do bem para ser aceito como tal, mas o faz atacando a outro ser humano, a quem projeta ser do mal, acaba usando dela para a agressão alheia. Ou melhor, da projetação negativa do que há de pior em você, aponta-se a própria maldade para o outro, enquanto mero espelho das suas sombras.
Entretanto, a intenção aqui não é apontar o dedo para as idiossincrasias de cada um. O que se busca é ressaltar que se há a presença inconsciente da maldade em cada psique, requer a cada indivíduo obter a consciência de sua presença psíquica, num primeiro momento. No segundo passo, surge o espaço para a análise objetiva de seus atos, dos níveis de dominação da maldade contra si e contra outrem no seu dia a dia, as famosas perversões, e as formas utilizadas para o seu controle psíquico.
Quem não vê em si maldades, deve fazer o chamado teste de realidade, perguntando-se a si mesmo em quais situações já agiu sem perceber para prejudicar a si mesmo e a outrem. Por exemplo, altos funcionários públicos que dizem defender o social, mas não deixam de se apropriar cada vez mais da riqueza da sociedade, obtida por meio altos de impostos, na busca de vantagens e benefícios exorbitantes perante a realidade brasileira, aderem a um padrão comum de maldade social, focada em fantasias meritórias que os colocam sob os demais indivíduos.
Quem não vê em si maldades, deve fazer o chamado teste de realidade, perguntando-se a si mesmo em quais situações já agiu sem perceber para prejudicar a si mesmo e a outrem. Por exemplo, altos funcionários públicos que dizem defender o social, mas não deixam de se apropriar cada vez mais da riqueza da sociedade, obtida por meio altos de impostos, na busca de vantagens e benefícios exorbitantes perante a realidade brasileira, aderem a um padrão comum de maldade social, focada em fantasias meritórias que os colocam sob os demais indivíduos.
Retirar as falhas das sombras inconscientes de cada um, segundo Jung, é essencial à terapêutica em prol do desenvolvimento ético individual. Isso significa estabelecer novas imagens pessoais de conduta, a limitar aquelas ações onde as sombras da maldade possam ser verificadas e ressignificar suas imagens pessoais internas.
Perguntar-se sobre como se deve fazer para alterar esse traço inadequado de sua personalidade, levará você a uma autoterapia possível de ser implementada a cada momento. Canalizar as energias agressivas também, a saídas melhores, é uma forma de atenuar tais pulsões destrutivas. Por exemplo, focar-se em esportes e atividades físicas intensas, ou ainda voltadas a lutas corporais, pode ser um caminho saudável ao extravase adequado dessas pulsões. Em outro exemplo, quantos não são os cirurgiões com tendências psicopáticas, que canalizam sua agressão ao ato cirúrgico, quando então podem usar essa tendência para a cura, ao invés da destruição dos corpos.
O ganho desta ressignificação das opções estará na melhoria de sua canalização ética, a diminuição dos ímpetos inconscientes das sombras sobre você e a oportunidade de, com o passar do tempo e dos efeitos deste processo, ir galgando melhorias perceptíveis nos relacionamentos e no grau de sua convivência social.
Pulsões destrutivas podem vir desde em que destrói seu corpo, aos poucos, no uso de substâncias tóxicas, como também em quem atira com uma metralhadora nos outros. A diferença está no fato de que, sua própria destruição, em regra, é um prerrogativa de sua personalidade. Uma vez em face de sofrimento ou insatisfação crônica, sua opção pela autodestruição é algo que atentará contra a pessoa e, logo, apesar de ser publicamente questionável, ninguém terá como deter suas escolhas.
Pulsões destrutivas podem vir desde em que destrói seu corpo, aos poucos, no uso de substâncias tóxicas, como também em quem atira com uma metralhadora nos outros. A diferença está no fato de que, sua própria destruição, em regra, é um prerrogativa de sua personalidade. Uma vez em face de sofrimento ou insatisfação crônica, sua opção pela autodestruição é algo que atentará contra a pessoa e, logo, apesar de ser publicamente questionável, ninguém terá como deter suas escolhas.
Porém, quando se fala de fazer mal a outrem, há o rompimento da ética que permite ao indivíduo autodestruir-se, pois aqui ele transcende essa esfera da maldade a si, para atingir aos demais, os quais em nada tem a ver com sua decisão autodestrutiva. Nesses casos, cabe ao Direito e à Psicanálise a justificada prevenção e coerção criminal e civil ao sujeito, de forma que seja imediatamente retirado da sociedade, uma vez que nela não teria mais condições de sobreviver, pelo seu rompimento ao Contrato Social estabelecido (não fazer mal a outrem).
Por exemplo, quando se observa um atentado terrorista, muitas vezes não se consegue conceber como um ser humano pode agir desta maneira, contra si e contra seu semelhante. Porém, quem lida com o Direito e com a Psicanálise deve ter claro que a maldade é algo presente em mentes doentias e atos como este são repetidos com frequência ao redor do mundo, com armas, caminhões, bombas. Portanto, algo a ser combatido continuadamente, sem descanso e em atenção redobrada.
Outra coisa importante, não se produz o bem ao se negar a existência do mal. Consciências frágeis negam o mal como se assim pudessem evitar sua ocorrência. Ou, ainda pior, justificam sua ocorrência e tentam relativizar desta maneira o dano causado por ele à sociedade, o qual, em regra, não suportam diretamente enfrentar. Juristas e afins não tem direito a utilizar-se de tal mecanismo histérico de defesa do ego chamado de negação. O mal deve ser coibido até mesmo quando somente em hipótese, de maneira a se prever sua ocorrência e antecipar-se em forma de profilaxia social.
Desse modo, o posicionamento da Psicanálise Jurídica leva em consideração que a presença da maldade é algo inerente às mentes doentias e seus pulsionamentos destrutivos correlatos, atos que não deixarão de ocorrer em qualquer sociedade organizada. Logo, atos de maldade devem receber sempre a prontidão e a eterna vigilância adequada em termos de profilaxia, prevenção e repressão pelo Direito.
Assim, juristas e afins devem ficar guarnecidos em face dessas potenciais ocorrências de maldade. Há que se estar sempre em prontidão, para a manutenção da ordem, do Estado Democrático de Direito, da defesa das pessoas e da paz social. Esse é um dos "múnus", o dever maior dessas profissões escolhidas.
Por fim, do ponto de vista da terapêutica individual, culpar-se por ter sido mal é o primeiro passo para ressignificação do imaginário das condutas antiéticas. Uma vez verificada uma falha cometida, será a hora de voltar-se reparar o ocorrido. Senão diretamente, ao menos de forma indireta, mas desde que isso seja o suficiente a restabelecer o fluxo do equilíbrio ético das pulsões individuais construtivas.
