Quebrar Regras e suas Consequências

No mundo das Ciências Naturais, a quebra das regras produz efeitos imediatos. Por exemplo, tente voar do segundo andar e verá o que a regra da gravidade fará com você. Logo, somente psicóticos em surto disruptivo com a realidade, ousam enfrentar tais regras e suas consequências, uma vez que estão imersos em suas fantasias alucinatórias. Porém, no mundo das Ciências Humanos e Sociais, quebrar regras parece ser algo mais tolerado, porém, não ausente de suas consequências também.

Especialmente em face de transes ideológicos, onde o delírio se aproxima de surtos psicóticos, com alteração de juízo e desprezo por dados da realidade, as fantasias introjetadas tendem a produzir danos não só ao indivíduo sub-julgado, mas também à sociedade, quando compra facilidades e caminhos fácies, naquilo que se chama de políticas populistas. Um exemplo claro disso está no mito do Estado provedor infinito, da noção de que direitos podem ser demandados ilimitadamente, sem a noção clara dos deveres recíprocos, na eleição de prioridades cada vez mais específicas a serem cobradas do erário público.

Onipotência e baixa tolerância à frustração e demandas ilimitadas são geralmente características presentes em crianças que, por seu estágio natural de desenvolvimento, ainda não estruturaram a noção de limites, de Superego, consequentes das castrações a partir da introjeção das regras necessárias a se viver em sociedade.

Só adultos retidos nas fases do desenvolvimento infantil tendem a quebrar a a enxergar nisto uma ausência de consequências e responsabilidades. Nesses casos, há uma estruturação deficitária do ego, a qual é considerada, segundo Jean Bergeret, na obra "Personalidade Normal e Psicopatologica", a partir de traços psicóticos ou em transição borderline. Ou seja, essa susceptibilidade à quebra não é operacional e tende a ser eliminada com o amadurecimento, podendo permanecer em caso de retenção e problemas no desenvolvimento individual.

Adultos que ainda insistam em simplismos de quebra das regras, negam a castração individual por fantasias a que estão retidos e os dados reais da experiência humana acumulada. Isso pode ter um custo social grave a toda a sociedade, quando se observado os resultados desses "experimentos sociais" movidos impositivamente.

Por exemplo, na Economia, há regras básicas aprendidas no primeiro mês de aula dos cursos superiores, sobre "Escassez", "Demanda e Oferta", "Base Monetária", que seu rompimento leva aos resultados de sempre: "Hiperinflação", "Desequilíbrio Fiscal", "Desestruturação Macroeconômica". Vide o exemplo da Venezuela.

Em termos jurídicos acontece a mesma coisa, pois existem postulados de ordem e de regramento em vida da sociedade que há muito foram sendo aprimorados, com a experiência humana somada geração a geração. São instituições consagradas e cristalizadas, para seus fins de manutenção da paz e da resolução dos conflitos sociais. Seu rompimento leva aos resultados de desestruturação social já observados e repetidos.

Mas por que quebrar as regras gera prazer? Em pessoas de estrutura obsessiva, quebrar as regras somente gera prazer quando se atende ao cumprimento de uma outra regra já estabelecida. Ou seja, sempre haverá uma regra a indicar o prazer de quebrar outra regra. Em personalidades histéricas, quebra da regra leva à necessidade de equalização perante um mal-estar observado, perante o qual não se consegue lidar, seja pelo repertório de respostas existentes ou pela baixa adesão a ele.

No caso de psicóticos, a própria deficiência estrutural interna os leva ao rompimento das regras, pois ainda não há registros mentais suficientes estáveis a introjetar o Superego e as demandas naturais de ordem. No caso dos perversos, há ausência de adesão à regra, pela disfuncionalidade mental do Superego ou sua completa ausência. Ou seja, seus registros não operam a internalização da culpa e da responsabilidade.

No plano coletivo, a saída é se investir na educação e na introjeção dos repertórios instrumentais relativos ao papel social da regra e sua necessidade, para um bem maior, que é a existência da civilização e a manutenção da vida em sociedade.

Sem regras, retorna-se ao primitivismo, na lei do mais forte, no caos desorganizado e incapaz de permitir a vida em sociedade. Para Hobbes, este é o estado da guerra civil, onde a luta passa a ser de todos contra todos. Portanto, o repertório de que regras são essenciais e seu respeito faz parte da vida pacífica em sociedade.

Regras em si, não só opressoras. Opressão é viver numa sociedade onde as regras não são respeitadas e isso dá abertura para que perversos possam se impor aos demais, destruir a economia, a paz e a capacidade das pessoas e das famílias viverem com liberdade e da maneira como querem seguir suas vidas privadas, em interferência de disrupções e disruptores revolucionários.

Quem quer viver numa sociedade melhor, tem o direito de reivindicar regras melhores, porém, deve seguir os procedimentos emancipatórios regulares para a obtenção de atualização dos constructos normativos.

 Quem só se perfaz na disrupção das regras e da sociedade, deve rever seus prazeres pulsionais destrutivos, uma vez que sem uma base sólida e estável, nada se constrói. Isso se realmente o que se quer é construir uma sociedade melhor para todos, e não somente dar vazão dos próprios conflitos internos para o mundo externo.

Para aqueles já desenvolvidos ao ponto de possuírem pulsões positivas e que desejem construir o melhor, um mundo melhor, uma sociedade melhor, o caminho é evitar o simplismo disruptivo. Há que se aceitar as limitações inerentes a qualquer mudança social e passar a canalizar suas energias à construção apaixonada de uma realidade melhor.

Isso requer que você foque suas energias no estudo, no trabalho e nas realizações, com dedicação e tenacidade, humildade, materializando pelo desforço pessoal contribuições à sociedade em que vive. Todo o novo positivo, não destrói o passado, o presente ou os demais, mas abre novos espaços de cognição e realização existencial simultâneos e inovadores. Logo, deixa-se a destruição de lado e passa-se à construção, ao aprimoramento e complementação das regras e esse é o caminho, a regra maior das realizações humanas.

Post scriptum: quem quebra regras imagina não sofrer assim, o império de outras regras aos que rompem as regras; mesmo não escritas, há níveis redundantes e concêntricos de outras regras a incindir sobre o livre arbítrio de cada ação humana; sim, existem e já estão predeterminados; as escolhas que se fazem são apenas sobre o modo da aprendizagem esperada a cada ação humana, pelo amor ou pela dor.