Superando o Transe Ideológico

Transe é considerado um estado alterado da consciência, quando o indivíduo acessa um outro padrão de ondas mentais e passa a vivenciar condições cognitivas diversas daquelas observadas em seu estado normal de vigília consciente. Neste sentido, a priori, transe é uma condição humana transitória, mas cuja qualificação poderá destoar à negatividade ou a positividade, dependendo dos efeitos ocasionados na sua ocorrência.
Em casos espiritualizantes, o transe, obtido por meditação, animismo ou até mesmo formas mediúnicas, é considerado como temática alheia à questão da saúde mental, uma vez que diz respeito a fenômenos metafísicos, para os quais, a Psiquiatria não dispensa diagnóstico, sob pena de violar a esfera de liberdade de manifestação religiosa e espiritual de cada indivíduo.

Porém, a mesma Psiquiatria é capaz de relacionar as ocorrências de alguém em transe aos chamados "surtos psiquiátricos", quando os resultados desse estado alterado da consciência levem o indivíduo a causar mal a si ou a outrem, a partir da verificação de duas diagnoses básicas: alucinações e delírios.

No caso das alucinações, o transe leva o indivíduo a um surto de alterações sensoriais, com interferências na sua visão, audição, olfato, tato, sem que isso se refira realmente a uma causa factível de ser verificada. Por exemplo, o indivíduo diz sentir coceira na pele decorrente da contaminação por milhares de piolhos, mas, quando verificado, tais insetos nunca são encontrados. Geralmente psicóticos em estados mais regressivos, como esquizofrênicos são os afeitos a tal forma grave de alteração sensorial.

Por outro lado, delírios são alterações de juízo e cognição da mente. Ou seja, o indivíduo rompe com a realidade, ao perder seu senso crítico e sua capacidade de discernir entre o que é imaginário (fantasia) e o que faz parte dos dados informativos do mundo à sua volta. Nesses casos, a mente é atacada em sua capacidade de reflexão e raciocínio lógico, cujo transtorno pode atingir psicóticos melancólicos, paranoicos, borderlines e até mesmo neuróticos (obsessivos ou histéricos).

Geralmente no caso de melancólicos (bipolares), borderlines e neuróticos obsessivos, o delírio faz como primeira vítima do delírio o próprio indivíduo, cuja força do superego excessivamente imposta em seu surto, acabam por o levar a um quadro depressivo (autopunição mental) ou acompanhada de comportamentos obsessivos-compulsivos ou até mesmo automutilação punitiva. No fundo, há um transe de uma culpa fantasiosa que o leva à própria responsabilização por todas as ocorrências à sua volta.

Por outro lado, paranoicos e neuróticos histéricos tendem a transes de projeção, quando seus delírios os levam a atuar no ambiente externo à sua volta. Enquanto paranoicos tendem agressivamente a tentar transformar o mundo à sua volta a partir de sua própria fantasiosa a partir de sua onipotência, histéricos fazem o mesmo, mas pela fantasia de afastar de dentro de si, o mal-estar imposto pela realidade à sua volta, perante a qual agem em negação.

Nos casos de transe ideológico, a coletivização dos surtos em quadros psicóticos, obsessivos ou histéricos, dependem de que o grupo proximal do indivíduo retroalimente essa ocorrência, de forma que a coesão do grupo não permita que algum dos membros exerça seu senso crítico para além do discurso ideológico permitido naquele espaço.

Tais tipos de prisão mental em transe, acabam retardando o processo de desenvolvimento da individualidade e da capacidade de autonomia de escolhas e de formação do caráter pessoal, pois tudo passa a ser ditado pelo grupo e pela sua estruturação ideológica teórica.

Por isso que, quem sai ou acorda do transe ideológico, deve se afastar imediatamente do grupo, pois, caso contrário, sofrerá a agressão por seu rompimento, a qual poderá ser tanto verbal quanto física. Todavia, trata-se de um processo libertador natural da individualidade, que poderá chegar mais cedo ou mais tarde a cada pessoa em equilíbrio.

Só não chegará nunca ao indivíduo de estruturação perversa, para o qual, a presença de transtorno de conduta antissocial, em forma de psicopatia ou sociopatia, será sua ancora de manutenção neste transe ideológico, enquanto nele verificar as possibilidades da realização de seus desejos perversos.

O despertar do transe geralmente começa a partir da verificação das incoerências discursivas do grupo ideológico (desconfiômetro), do ressurgimento de algum tipo de criticidade interior e do desejo individual de encontrar novos caminhos e possibilidades existenciais (seguir em frente). 

O melhor seria sempre se evitar preventivamente a adesão a quaisquer tipos de transes ideológicos e isso se faz pela manutenção do discernimento crítico e pela decisão íntima de se manter independente e coerente consigo mesmo, mesmo que esteja afim de algum tipo de movimento, discurso ou ideologia, com a qual concorde, em parte.

Toda consciência deve ter claro em si que não há estrutura social humana perfeita e que, em qualquer grupamento humano haverá psicóticos, neuróticos e também perversos, em maior ou menor grau, a buscar satisfazerem seus desejos e ainda, sempre haverá falhas resultantes das imperfeições teóricas e práticas humanas.

Logo, a partir da Psicanálise, um grau de maturidade a ser alcançado está no desenvolvimento do ego (consciente), em direção à independência e autonomia pessoal. Há que se lembrar de que no início da Psicanálise, Freud utilizara da hipnose para tentar a cura de seus pacientes, colocando-os em transe. Porém, foi o próprio Freud quem verificou a imperfeição deste artifício, uma vez que os efeitos dessas induções cognitivas em estado alterado da consciência eram passageiros.

Por isso, Freud passou a atuar na clínica das associações livres, a partir do diálogo consciente com seus pacientes, método que se mostrou o melhor caminho ao amadurecimento do estrutural psíquico de cada indivíduo. 

Há que se entender que na terapia psicanalítica não há um diálogo impositivo ditado pelo psicanalista, pois cada qual deve, a partir da sua individuação, conforme descrevia Jung, construir sua própria identidade pessoal. Leva-se o tempo que for necessário para que cada indivíduo fortaleça sua auto-estima emocional e desenvolva sua capacidade de discernimento, a ponto de estabelecer, por si mesmo, seu espaço mental e de conforto emocional, livre de quaisquer interferências, modelos ou imposições.

Nesse sentido, a Psicanálise, em "ultima ratio", é uma proposta libertária da consciência, a ponto combater quaisquer formas de coletivização que retirem de cada ser humano o direito de ser o que quiser ser, da maneira que bem entender a seu tempo de desenvolvimento, restando como os únicos limites, não fazer mal a si nem a outrem.