Construir a própria individualidade é um processo que leva tempo, pois este seria o ápice do desenvolvimento estrutural da personalidade, quando a pessoa atinge a plena capacidade e autonomia sobre si, seus desejos, escolhas e opções existenciais a serem realizadas em seu caminho.
Individualidade é construída pouco a pouco na história de cada ser humano. Para a Psicanálise, ela começa com a separação do indivíduo do útero materno, quando então a criança abandona, pelo nascimento, aquela condição de inteireza e completude com o corpo da mãe, que lhe trás segurança, abrigo e provém todas as suas necessidades.
Nascer é doloroso, a primeira das castrações dessa saída do paraíso, um contato com a realidade a acompanhar o indivíduo por toda a sua vida. Todavia, sem castrações, perdas e crises de crescimento, não haveria a individualidade. Logo ao nascer, ainda há uma segunda castração dolorosa na qual o indivíduo e obrigatoriamente apresentado: a alteridade, a existência do outro, algo fora de seu controle e sobre outro postulado de vontade.
O outro, para o recém nascido, é inicialmente apresentado pelo seio materno, que lhe provém alimento e não estará sempre à sua disposição, pois dependerá a ação materna. Com isso, ocorrerá um segundo contato com a realidade deste indivíduo em estruturação, a saber de seus limites e da dependência dessa interação para eliminar sua sensação de fome.
Aqui, mais um processo de individualização, onde a criança começa a entender que o seio é o outro que lhe falta, dentro de um processo de busca contínua por satisfação, frustrada ou suplantada momentaneamente, mas nunca mais estável, como na reminiscência do que existia antes, nas memórias daquele paraíso uterino perdido.
Na sequência, o indivíduo vai passo a passo a construir sua individualidade, estabelecendo inicialmente o controle sobre o seu corpo, depois o limites e contatos com os outros corpos e objetos, as emoções e sentimentos por eles, até iniciar o processo de elaboração cognitiva da racionalidade, a introjeção das regras e da comunicação.
Se tudo der certo, este indivíduo atingirá sua adultidade um dia, para o qual o Direito estipula enquanto métrica mínima, a idade de 18 anos, enquanto balizador da capacidade mínima para agir com total liberdade e exercer atos na vida civil e assumir responsabilidades civis e criminais por eles.
Hoje já se sabe que o amadurecimento vai além desta idade e, cada qual, a partir de suas condições, ambientes e oportunidades de experimentação, pode tardar mais ou menos até atingir o grau de individualidade necessário a se orientar sob sua própria determinação no mundo.
Coletivismos, por seu turno, são correntes do pensamento humano que pretendem suplantar parte desta individualidade, ao passo que, trazem ao indivíduo algo tipo de conforto, segurança e sentido existencial, nos campos da moral, dos costumes, dos direitos e do afeto.
De certo ponto de vista, a própria existência da sociedade e do Estado, demanda o coletivismo das pessoas, inerente ao ser humano enquanto espécie gregária, cuja sobrevivência depende, desde o nascimento, em muito desta troca de participações no cenário da vida. Portanto, sempre haverá um grau de limitação da individualidade, a ser observado na vida em sociedade.
Posso ser um eremita e viver sozinho. Um náufrago e viver conforme minhas regras em total liberdade num ilha deserta. Já na presença de outro náufrago, regras e limitações da individualidade serão necessárias, em desforço coletivo para que todos possam cooperação à sobrevivência coletiva.
A questão do coletivismo somente se torna problemática no seu excesso, quando seu uso ideológico volta-se a anulação da subjetividade, quando o indivíduo deixa de ter seu espaço, sua importância e possibilidades diferentes de realização. Nestes casos, o que vale é a decisão do coletivo, que estaria acima das pessoas. Restaria ao indivíduo seguir cegamente as regras do grupo, sem espaço para a liberdade.
Aos moldes do terceiro episódio do filme Matrix, trata-se da criação de "Smiths", de pessoas cuja individualidade foi eliminada pelo grupo, dentro de alguma forma de transe ideológico, capaz de não só anular a personalidade, mas de colocar aquele que foi hipnotizado em modo automático, sem pensamento próprio, questionamentos, críticas ou capacidade de individuação.
Tais transes psíquicos geralmente atingem a pessoa a partir de suas fragilidades emocionais, espaço por onde são trabalhadas por sua baixa estima, a ponto de se sentirem soerguidas (ou emponderadas) discursivamente, sem que isso signifique, no mundo real, uma alteração subjetiva em suas condições humanas.
A partir daí, começam a repetir o discurso posto pelo coletivo, sempre em linha com alguma orientação superior, contra a qual não há espaço a discordância. Eventuais tentativas de individuação serão banidas imediatamente, com o grupo exercendo a admoestação direta e conjunta contra o discordante que, por sua baixa-estima e incapacidade de reação acaba cedendo e acatando ao comando do grupo.
Há coletivismos e coletivismos. Há aqueles que realmente colaboram com a vida em sociedade, na construção de apoio mútuo e cooperação entre todos os que compartilham aquele espaço de realização social. Nesses casos, haverá sempre um grau de liberdade à individualidade, às opções com autonomia pessoal, para além do grupo.
Entretanto, há coletivismos também destrutivos, que aos moldes do agente Smith, criam soldados despersonalizados, milicianos, servos e escravos de ideologias, sutilmente colocadas sem que se perceba tal mecanismo disruptivo, pois se encobrem seus reais propósitos com fins superficiais belos, justos, porém, muitas vezes não factíveis, por sua natureza utópica.
Nesses casos, a anulação da individualidade é reforçada com a eleição de um inimigo social comum, a demandar a junção de forças e a supremacia do coletivo, para que se possa enfrentar o "mal" do outro lado. Com isso, cada pessoa do coletivo deixa de canalizar suas insatisfações para com o grupo, por seus defeitos e incoerências naturais humanas, e passa a projetar seu mal-estar existencial, muitas vezes de forma agressiva, aos alvos elegidos como o inimigo.
Sair desta condição não é fácil, pois requer o uso do auto-discernimento, da resiliência necessária a romper emocionalmente com a dependência do coletivo, além de suportar os ataques, conflitos e admoestações que receberá nesta ação libertária.
Sempre é tempo de acordar de um sonho ruim e até mesmo as hipnoses sociais tem sua duração temporal limitada. Para deixar de ser um agente Smith e recobrar sua individualidade, alguns passos podem ser elencados:
a) Comece a se afastar aos poucos do coletivo grupal. Primeiro fisicamente, depois emocional e mentalmente.
b) Crie ou assuma atividades neutras e isentas de maiores críticas, para fins de justificar seu afastamento, como compromissos familiares, afetivos, profissionais ou escolares.
c) Deixe de replicar discursividades e comece a ler, ouvir e assistir outras fontes de informações, com outros tipos de pensamento, alternativos ao que está acostumado a ouvir. Não vá direito a quem se opõe diretamente ao coletivo, vá aos poucos, formando novas sinapses, novos argumentos.
d) Dê um tempo em suas redes sociais virtuais, foque-se em coisas reais, alguma aprendizagem técnica, cultural e isenta de conteúdos ideológicos.
e) Em casos mais densos, mude de bairro, de cidade, de Estado ou até de país, se possível for, para começar uma nova vida, com novos amigos e redes sociais.
f) Procure outros grupos sociais, onde possa encontrar pessoas positivas, construtivas e capazes de contribuir realmente com o crescimento e realização existencial uma das outras, sem disrupções ou necessidades de conflitos e destruição social, se necessitar suporte.
g) Dê tempo ao tempo, até que psicológica e mentalmente consiga equilibrar-se, retornar à sua individuação e seguir seu caminho, com autonomia e privacidade.
Em alguns casos, deixar de ser um agente Smith coletivista tem seu preço a ser pago. Portanto, faça o que for possível em termos de reparações, de reconstruções. Não tenha vergonha ou medo de reconhecer seus erros, suas opções equivocadas e refazer seu mundo.
Isso faz parte da vida, do viver e do aprender. Ninguém cresce ou evolui para sua individualidade sem experimentar o mundo à sua volta. O importante sempre é o dia de hoje, como estará seu ego fortalecido a partir da aprendizagem vivida, como poderá agora colaborar, a partir de sua experiência do passado, para uma realidade efetivamente melhor, com individualidade.
Sair dos grilhões da caverna de Platão não é fácil, talvez algo até mais doloroso que o nascimento, pela consciência adulta dos erros vivenciados. No entanto, uma oportunidade que só está acessível aos que já se libertaram dos grilhões das interprisões coletivistas disruptivas e isso é alívio e uma vitória a ser comemorada por toda a vida.
