Sinal dos Tempos do "Tudo Pode": uma juventude enferma

Um estudo realizado na USP, clique aqui para acessar o link, afirma que "a saúde mental dos estudantes brasileiros está comprometida", com os estudantes atingindo o mais alto grau de estresse e ansiedade nas atividades acadêmicas. Uma das causas apontadas para tal quadro seria "a crise econômica que assola o país". Seria realmente este o problema da juventude atual?
Crises econômicas não são novidade no Brasil. Vive-se uma a cada ciclo de 5 a 10 anos e, portanto, não seria de se esperar um aumento nos níveis de ansiedade ou estresse dos estudantes, para além dos verificados em outras situações de desequilíbrio econômico. Logo, há algo a mais, que precisa ser entendido nesse processo.

Uma melhor hipótese de fundo, a partir da Psicanálise Jurídica, é a de que os jovens estão atualmente sobre um bombardeio incessante de ideologias disruptivas e desestruturantes, a induzi-los ao pensamento de que seria possível desconstruir as estruturas já existentes e, a partir do zero, inovar e gerar um mundo totalmente novo, inclusivo, perfeito, feliz e igualitário.

No fundo, tais ideologias acabam por somente permitir a destruição das estruturas psíquicas individuais, retirando-lhes a segurança e o eixo existencial dos modelos já conhecidos de realização humana tradicional, a partir da família, da sociedade, da cultura e da realização pessoal. Como não agregam nada melhor viável a ser construído no seu lugar, muito pelo contrário, podem levar a experiências sociais desastrosas, como a vivida atualmente no modelo bolivariano da Venezuela, onde tudo foi propositalmente colocado em colapso estrutural.

Essas fantasias de onipotência perante a realidade retiram o indivíduo dessas estruturas que garantem a saúde psíquica em equilíbrio e os colocam em abstração coletivista. Imaginar que se pode negar o acúmulo da história, dos esforços de todos os antepassados para se chegar até a condição de conforto atual e começar do zero, reflete apenas o sintoma de uma alienação individual, cuja consequência maior recai diretamente sobre a instabilidade emocional e, logo, os sintomas de estresse e ansiedade verificados em grande volume por jovens sem estruturação psíquica.

Inovar sempre é preciso, porém, quem inova parte da segurança da realidade existente e tenta colaborar para o avanço dela, sem rompimentos disruptivos. Em termos psíquicos, somente os psicóticos em transtorno psiquiátrico fazem tamanha ruptura, uma revolução interna a ponto de desconectar-se totalmente da realidade, em forma de surto delirante ou alucinatório.

A fantasia de um mundo libertino, onde "tudo pode" ser alterado, sem consequências e responsabilidades, também cria uma falsa expectativa de realização que nunca se concretiza, pelos "nãos" que a realidade reserva a qualquer pessoa que assim tenta proceder contra o Contrato Social. Daí, um quadro frustrações recorrentes passa a ser esperado, num mundo onde se discursam sobre direitos, mas o que se encontra na realidade são mais deveres. Tal frustração contínua a partir de expectativas focadas em falsas crenças e ideologias, gera não só estresse e ansiedade, mas também depressão, um outro mal a atingir os jovens atualmente.

Sair deste quadro requer que se ofereça aos jovens caminhos seguros, estruturados, com o retorno à realidade do possível, focando-se naquilo que se pode fazer e se atingir, a partir do desforço pessoal. Ou seja, aquilo que todos podem atingir por seus méritos e desforços. Trata-se, na terapêutica psicanalítica, de um abandono das fantasias e o retorno ao real, retirando-se a carga de sofrimento desta opção, uma vez que o real também pode ser satisfatório, desde que as expectativas, crenças e desejos estejam adequados e possíveis de serem construídos.

É dever de toda a pessoa madura e já estruturada, colaborar neste sentido perante os mais jovens, a destacar exemplos de caminhos de sucesso a serem trilhados, amparar e auxiliar com discernimento a quem também busca seu lugar ao sol. Estudantes são jovens cheios de vida e sonhos, de esperança e desejo de encontrarem sua realização e sua felicidade. Isso está correto. O incorreto está em focar esse caminho de realização em crenças abstratas, ideologicamente formuladas apenas para se destruir o equilíbrio social, a partir da destruição psíquica das estruturas individuais.

Com sonhos factíveis, de realização pessoal, supera-se este vazio de sentido e de busca. Permite-se assim, o reencontro individual com os caminhos estruturais já existentes, o conforto emocional de seguir algo já trilhado e que agora posto à disposição das novas gerações. Ver o mundo atual a partir de suas vitórias e conquistas a serem preservadas, do que é belo, tranquilo e saudável, é uma saída terapêutica contra as pulsões de morte ideológicas, que buscam demonstrar um mundo cheio de problemas,  conflitos materiais e pessoas a serem confrontadas por suas diferentes escolhas.

O estudo deve ser reconfigurado enquanto oportunidade e não como dever. Encarar os sucessos acadêmicos enquanto momentos de prazer e de jubilo pessoal, são importantes, pois isso dá a segurança, satisfação e contentamento individual. Assim, o que é prazeiroso, o que significa um caminho à vitória pessoal a ser seguido, não tem espaço para se tornar estressante, angustiante, depressivo ou ansioso.

Para você, jovem, que lê este post, o ideal é discernir, revisar suas crenças e escolher desafios reais pela frente. Construa sua satisfação com base nas pequenas vitórias obtidas dia a dia neste caminho. Pense grande, mas premie-se dia a dia com detalhes, avanços e felicidades. Com este estado de espírito positivo, a cada nova conquista diária, mais estruturado e mais confortável sentirá um caminho à sua adaptação a um mundo de desafios. Reserve algo que gosta, para comemorar suas vitórias semanais, crie um dia do pagamento durante a semana, para somente fazer o que você gosta. Sinta-se um vencedor e afasta-se de quem só observa o caos, a negatividade e a destruição como caminhos existenciais.

É direito de todos querer uma sociedade melhor, um mundo melhor e mais justo. Mas isto não se faz pela imposição. Cada qual, ao realizar-se pela construção de algo por si e para si, o que direta e indiretamente estará colaborar efetivamente para uma sociedade melhor a todos. É indevido a um jovem, em pulsão de vida, com tudo pela frente, com esperança e sonhos no seu futuro, sentir-se deprimido, ansioso ou estressado. Não se cobre tanto pelos seus erros ou aqueles do mundo e, por outro lado, parabenize-se a cada passo de sucesso individual a reverberar no todo, pois isto é um processo sistêmico. A maior revolução humana é interna, psíquica, na obtenção da estruturação suficiente para se sentir satisfeito, seguro, confortável e realizado existencialmente, mas isso requer esforço, dedicação e tempo que, se feitos com prazer, tornam a vida uma aventura ótima de ser vivida.