Uma PEC (Projeto de Emenda à Constituição) de número 181, que tinha como direcionamento aprimorar o benefício da licença maternidade aos partos prematuros, acabou por receber o chamado "contrabando legislativo", ao incluir a adoção da chamada "Teoria da Concepção", o que tornaria ilegal a realização de qualquer das formas de aborto atualmente permitidas no Brasil, inclusive a obrigar mulheres grávidas por estupro a manter suas gestações.
O obscurantismo desta proposta é tão grave, que remete em retrocesso aos tempos da Idade Média, onde mulheres eram queimadas na fogueira, sob o pretexto de serem bruxas, só porque tinham posicionamentos diferentes da maioria, cultuavam a liberdade (inclusive a sexual) e não se submetiam à religião dominante.
Sob o discurso superficial de que se visa garantir a vida, vilipendia-se outros valores, como a dignidade humano, os direitos reprodutivos e sexuais, além da proibição à tortura ou submissão à condição análoga a ela.
Como se a gravidez, uma vez ocorrida, tivesse que seguir o fundamento religioso dominante e ser levada até o seu final, independente das condições de sua ocorrência, num nítida forma de controle social sobre os corpos femininos, como feita desde o passado medieval.
Mas o interessante é observar psicanaliticamente como a estrutura de pensamento de tais personalidades apoiadoras de tal medida, espelham uma forma sadismo religioso inquisitorial, encoberto sob o manto do bem, a motivar prazeres subliminares perversos, que podem estar encobertos neste discurso pela vida.
Como sempre na história da humanidade, radicais, de esquerda ou de direita, estão focados numa disputa pelo poder do Estado. Se aquela época o poder residia em religião, hoje reside também na ideologia moralista. Em ambos os casos, radicais querem aquilo que se chama controle social. Controle sobre as demais pessoas, controle sobre a vida alheia, controle sobre a liberdade de pensamento.
Interessante observar que, nos países desenvolvidos, onde impera uma base protestante, as sociedades são organizadas com a liberdade enquanto valor maior, do qual cada um dirige sua vida da melhor maneira possível, assumindo a responsabilidade por seus atos, por sua própria escolha moral e religiosa. Em grande parte destes países (EUA e países Europeus), os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres dizem respeito à esfera íntima e personalíssima de decisões, cabendo o direito ao aborto, geralmente até o terceiro mês de gravidez. De outro prumo ideológico, China, Cuba e Rússia permitem o aborto.
Enquanto isso, países de geopolítica periférica, geralmente sob de influência católica, padecem não só pela desigualdade social, mas também pela restrição às liberdades individuais, especialmente num local distante chamado América Latina, onde o rebanho populacional aceita em submissão os ditames de suas provações em terra. E, mais interessante ainda, é a presença em certas religiões de base protestante nesses locais distantes do eixo geopolítico, com essa toada intervencionista antiabortiva, distanciando-se dos modelos de respeito à liberdade existentes nos países desenvolvidos.
Claro que, a grande maioria das pessoas, centradas e em equilíbrio existencial, tem suas convicções religiosas próprias, suas escolhas e posições sobre a questão do aborto em suas próprias vidas, sem querer interferir ou controlar a liberdade alheia. Para estas pessoas, a atual legislação sobre o aborto está adequada e as decisões jurisprudenciais atendem a casos especiais.
Deve ficar claro que não são as religiões cristãs em si, as fomentadoras do radicalismo e do controle social atualmente. Essa interferência da igreja no Estado foi abandonada gradualmente depois da Idade Média, até se atingir, na modernidade do Estado Liberal, a sua definitiva separação, no surgimento do laicismo estatal. Mas são seus fiéis com desvios psíquicos, os mais predispostos aos fanatismos morais, a tentar impor o controle do Estado sob os demais. Nesse ponto, em nada diferem de seus correlatos fanáticos esquerdistas que, no outro polo, tentar impor suas ideologias e também controlar o Estado.
Focando-se exclusivamente nos radicais conservadores, ditos de ultradireita, surge esse projeto de PEC 181, voltando-se a imposição moral da proibição total do aborto no Brasil, até mesmo nos casos de estupro, risco de vida à mãe ou anencefalia, cegos a qualquer autocrítica e realismo, como se a saída "purificadora" pelo moralismo irá resolver os problemas nacionais.
Em Psicanálise, trata-se de uma estrutura obsessiva neurótica da personalidade, de impor regras aos demais, com proibições e punitivismos, a invadir a esfera da vida privada e íntima dos outros cidadãos, como se assim pudessem ou tivessem o direito de interceder, para purificar e salvar os demais que deles divergem, com suas próprias convicções espirituais, autonomia e pensamento.
Tais obsessivos neuróticos podem ter algum fundo sexual reprimido, como diria Freud, que os leva a externalizar a repulsa de condutas que se sentem inconscientemente culpados por desejarem, como sexo casual, sexo com mais de um parceiro fora do casamento. Uma vez ocorrida, agora projetam toda a sua repressão interna no outro, que então terá de "arcar com as consequências de um filho não desejado."
Outros, em nível maior de radicalismo patológico, aventam a possibilidade de que a mulher estuprada deve levar a gravidez até o fim e que, caso não queira ficar com o filho, faça a doação do mesmo. Aqui, há algo mais que obsessão neurótica. Há um certo grau de perversidade sádica, a validar a ocorrência crime sexual enquanto merecimento, mesmo que inconscientemente. Para tais pessoas, a responsabilidade por tal ocorrência é da vítima que, por alguma circunstância de sua mente repressiva, teria se colocado culpavelmente nessa situação ou predisposição a tal estupro e, logo, deverá arcar com suas consequências.
Ou ainda, dentro de um mesmo plano sádico, de obrigar a mulher estuprada a levar sua gestação até o final, seu sofrimento e indignidade seriam, perante o direito à vida, cabíveis no sentido de que a mulher poderia doar a criança para a adoção após o nascimento. Sob o manto desta defesa da liberdade, está o sadismo de incutir novamente à mulher não só o sofrimento da gestação decorrente de crime sexual, mas também, de ter de realizar um juízo de escolha incabível, despreza seu máximo sofrimento. Seria, aos moldes inquisitoriais desta mente ultraconservadora, a criação de um "auto de fé", inconscientemente a validar sua sujeição religiosa ou a atestar sua culpa e merecimento pelo estupro, se fizer a doação.
Tal pureza moralista termina aqui, com esse "alguém vai adotar", o salvador isenta-se de responsabilidade pelo futuro da criança. Fez sua parte e salvou uma vida da mulher pecadora. Agora, deixe esta vida à sua sorte, para que desfrute do mundo iluminado por sua religião.
Tal pureza moralista termina aqui, com esse "alguém vai adotar", o salvador isenta-se de responsabilidade pelo futuro da criança. Fez sua parte e salvou uma vida da mulher pecadora. Agora, deixe esta vida à sua sorte, para que desfrute do mundo iluminado por sua religião.
O sadismo perverso não somente decorre de repressão sexual, ele advém de certo cunho psicopático, de quem tem esse tipo de deficiência cognitiva. Na técnica, psicopata é aquele que, por deficiência no desenvolvimento do lóbulo pré-frontal do cérebro, não consegue estabelecer empatia com a condição e o sofrimento alheio.
Pode ainda acontecer casos onde o prazer pela destruição alheia, é externalizado ao sofrimento observado na prática, como forma de alívio do mal-estar e da tensão interna. Nesse sentido, aquele que tem internamente uma vida miserável emocionalmente, pode sentir alívio ao defender ideias que geram sofrimento alheio, o que lhes trás algum alento.
Somando tudo, pode haver uma tendência a acentuar o sofrimento daquele que sofre para além de você, que pode ainda ser somada a uma sensação purificadora, ampliada com o juízo obsessivo de estar moralizando a sociedade em nome de sua crença salvadora. Tais prazeres destrutivos dos demais são verificados por Freud na obra "Além do Princípio do Prazer". Guerras são feitas assim.
Como sempre, não há cura para tais condições disfuncionais em Psicanálise. O que há, para todos, é a capacidade de discernir, estabelecer a empatia, respeitar a liberdade e autonomia, mantendo suas convicções religiosas pessoas na parte que lhes cabe, ou seja, do portão para dentro da sua casa.
Somando tudo, pode haver uma tendência a acentuar o sofrimento daquele que sofre para além de você, que pode ainda ser somada a uma sensação purificadora, ampliada com o juízo obsessivo de estar moralizando a sociedade em nome de sua crença salvadora. Tais prazeres destrutivos dos demais são verificados por Freud na obra "Além do Princípio do Prazer". Guerras são feitas assim.
Como sempre, não há cura para tais condições disfuncionais em Psicanálise. O que há, para todos, é a capacidade de discernir, estabelecer a empatia, respeitar a liberdade e autonomia, mantendo suas convicções religiosas pessoas na parte que lhes cabe, ou seja, do portão para dentro da sua casa.
