Um grande poeta musical que este país recebeu e que rapidamente se foi, deixou músicas conceituais sobre si e sobre o Brasil. Mormente no seu 3.º álbum solo, chamado "Ideologia", a dor do luto antecipado vivido pela contaminação com o HIV (lembrando que naquela época, 1988, o prognóstico de vida era curto aos soropositivos pelos parcos tratamentos até então existentes), trouxe letras profundas, somente acessíveis em estados existenciais críticos, os quais cabe agora resgatar.
A questão da realidade x a fantasia, é um postulado de amadurecimento na Psicanálise. Castração é o fenômeno psíquico inerente à ruptura de uma ilusão e isso é adquirido a partir das experiências da realidade, que forçam o indivíduo a situar-se diante dos fatos. Decepção é um sentimento comum nestes casos, de quem sente a castração e inicia seu processo de liberação da fantasia até então existente.
Permanecer em delírio fantasioso, enquanto opção de resistência, é algo possível. Porém, esta opção cobra um preço caro ao indivíduo, uma vez que sua adesão a um conjunto onírico afastado da realidade, requer muita força mental e emocional para ser mantido. O indivíduo passa a lutar constantemente contra os fatos e a fantasiar cada vez mais, acentuando seu processo de delírio, a ponto de romper com a realidade e vivenciar em um mundo apartado, no qual possa manter-se em coerência psíquica.
Geralmente o uso de drogas depressores do sistema nervoso acompanha tais quadros, como o álcool e a maconha, dentro de um ciclo difícil de ser rompido, enquanto a realidade for negada. Para outros, a saída pela agressão, de todas as formas possíveis (quebra-quebra, brigas, crimes), é o caminho de exteriorização da insatisfação/frustração decorrente dos conflitos internos vividos, quando se tenta manter uma coesão impossível de existir entre a fantasia e a realidade posta.
Crescer por vezes dói. Trata-se de uma dor do luto, da perda de um referência até então existente e seguro. Quando se perde algo, há que se reconfigurar as coisas, até que novos caminhos sejam alcançados. Se você conseguiu chegar até aqui no texto, não precisa deixar de pagar o analista. Você já sabe algo a mais sobre si. Crises de crescimento são inerentes ao caminho de desenvolvimento de qualquer pessoa. Se ela chegou e foi entendida como tal, não há mais o mecanismo de resistência da evitação, de abafar tudo no seu inconsciente e deixar para lá.
Crises de crescimento são oportunidades de seguir em frente, de abrir-se a uma nova fase da vida, de adquirir maturidade e poder amadurecer enquanto pessoa. O mais comum na maioria da vida das pessoas, é passar por fases de desenvolvimento da personalidade, cuja maturação, com o tempo, a experiência e envelhecimento cortical, provocam mudanças na forma de se vivenciar o mundo.
Assim, é normal aos 20 anos ser de "esquerda", aos 40 anos ser de "direita" e aos 60 anos olhar somente para aquilo que importa. O indivíduo aos 20 anos, tende a viver para o futuro, nas esperanças e expectativas do que ainda virá; e como tem o mundo pela frente, deseja que ele possa ser amplo e fraterno o suficiente a ponto de corrigir todas as injustiças e desigualdades existentes.
Aos 40 anos, a pessoa tende a olhar para si, para o seu presente. É a idade em que chega à metade do caminho. O futuro é agora e o que passa a importar é a realidade posta. A vida passa a ser pragmática e os valores tendem a um curso conservador, uma vez que o foco é atender as necessidades suas e da família. Não há mais como esperar pelo futuro, logo, o presente real é o que importa.
A partir dos 60 anos, começa-se a olhar para o passado, ao que passou e permitiu chegar-se até aqui. A bagagem adquirida retira as fantasias do centro da psique e coloco o indivíduo em foco com o que ainda pode ser aproveitado, focando-se em si, no conforto, saúde e bem-estar.
Estar em cima do muro não faz de você uma pessoa pior ou melhor. Porém, estar em cima do muro permite que você tenha uma visão de conjunto dos dois ou mais lados das coisas. Maturidade é isso, atingir uma individualidade com autonomia, ser senhor(a) de si, discernir sem as paixões mundanas das fantasias ideológicas, dentro daquilo que possa ser o melhor para todos. Na natureza, quanto mais alto atingir um ser vivente, mais status ele tem no conjunto daquela espécie ou daquele ecossistema.
Não são os lados que importam, mas sim, a visão integral do território a partir de uma posição privilegiada. Isso significa que o amadurecimento e o discernimento foram atingidos. Em momentos cruciais da vida, quem tem uma visão privilegiada do conjunto tem a responsabilidade de colaborar com quem ainda trilha somente um dos lados do muro. Ter a sapiência necessária a tal função não requer títulos, poderes ou dinheiro, requer sim, discernimento e maturação psíquica, a ponto de que as fantasias tenham sido deixadas no momento oportuno de sua superação existencial.
Para escutar o podcast complementar desta análise, clique aqui.
Meu Partido
É um coração partido
E as ilusões
Estão todas perdidas
Os meus sonhos
Foram todos vendidos,
Tão barato que eu nem acredito
Ah! Eu nem acredito
Permanecer em delírio fantasioso, enquanto opção de resistência, é algo possível. Porém, esta opção cobra um preço caro ao indivíduo, uma vez que sua adesão a um conjunto onírico afastado da realidade, requer muita força mental e emocional para ser mantido. O indivíduo passa a lutar constantemente contra os fatos e a fantasiar cada vez mais, acentuando seu processo de delírio, a ponto de romper com a realidade e vivenciar em um mundo apartado, no qual possa manter-se em coerência psíquica.
Geralmente o uso de drogas depressores do sistema nervoso acompanha tais quadros, como o álcool e a maconha, dentro de um ciclo difícil de ser rompido, enquanto a realidade for negada. Para outros, a saída pela agressão, de todas as formas possíveis (quebra-quebra, brigas, crimes), é o caminho de exteriorização da insatisfação/frustração decorrente dos conflitos internos vividos, quando se tenta manter uma coesão impossível de existir entre a fantasia e a realidade posta.
Eu vou pagar
A conta do analista
Pra nunca mais ter que
Saber quem eu sou
Ah! Saber quem eu sou
Crescer por vezes dói. Trata-se de uma dor do luto, da perda de um referência até então existente e seguro. Quando se perde algo, há que se reconfigurar as coisas, até que novos caminhos sejam alcançados. Se você conseguiu chegar até aqui no texto, não precisa deixar de pagar o analista. Você já sabe algo a mais sobre si. Crises de crescimento são inerentes ao caminho de desenvolvimento de qualquer pessoa. Se ela chegou e foi entendida como tal, não há mais o mecanismo de resistência da evitação, de abafar tudo no seu inconsciente e deixar para lá.
Crises de crescimento são oportunidades de seguir em frente, de abrir-se a uma nova fase da vida, de adquirir maturidade e poder amadurecer enquanto pessoa. O mais comum na maioria da vida das pessoas, é passar por fases de desenvolvimento da personalidade, cuja maturação, com o tempo, a experiência e envelhecimento cortical, provocam mudanças na forma de se vivenciar o mundo.
Assim, é normal aos 20 anos ser de "esquerda", aos 40 anos ser de "direita" e aos 60 anos olhar somente para aquilo que importa. O indivíduo aos 20 anos, tende a viver para o futuro, nas esperanças e expectativas do que ainda virá; e como tem o mundo pela frente, deseja que ele possa ser amplo e fraterno o suficiente a ponto de corrigir todas as injustiças e desigualdades existentes.
Aos 40 anos, a pessoa tende a olhar para si, para o seu presente. É a idade em que chega à metade do caminho. O futuro é agora e o que passa a importar é a realidade posta. A vida passa a ser pragmática e os valores tendem a um curso conservador, uma vez que o foco é atender as necessidades suas e da família. Não há mais como esperar pelo futuro, logo, o presente real é o que importa.
A partir dos 60 anos, começa-se a olhar para o passado, ao que passou e permitiu chegar-se até aqui. A bagagem adquirida retira as fantasias do centro da psique e coloco o indivíduo em foco com o que ainda pode ser aproveitado, focando-se em si, no conforto, saúde e bem-estar.
Pois aquele garoto
Que ia mudar o mundo
Mudar o mundo
Agora assiste a tudo
Em cima do Muro
Em cima do Muro
Estar em cima do muro não faz de você uma pessoa pior ou melhor. Porém, estar em cima do muro permite que você tenha uma visão de conjunto dos dois ou mais lados das coisas. Maturidade é isso, atingir uma individualidade com autonomia, ser senhor(a) de si, discernir sem as paixões mundanas das fantasias ideológicas, dentro daquilo que possa ser o melhor para todos. Na natureza, quanto mais alto atingir um ser vivente, mais status ele tem no conjunto daquela espécie ou daquele ecossistema.
Não são os lados que importam, mas sim, a visão integral do território a partir de uma posição privilegiada. Isso significa que o amadurecimento e o discernimento foram atingidos. Em momentos cruciais da vida, quem tem uma visão privilegiada do conjunto tem a responsabilidade de colaborar com quem ainda trilha somente um dos lados do muro. Ter a sapiência necessária a tal função não requer títulos, poderes ou dinheiro, requer sim, discernimento e maturação psíquica, a ponto de que as fantasias tenham sido deixadas no momento oportuno de sua superação existencial.
Para escutar o podcast complementar desta análise, clique aqui.