Instâncias Psíquicas Representadas em Correntes Políticas

Quando olhamos as divisões políticas da população brasileira, veremos dois polos, por vezes radicalizados, entre direita e esquerda, com demarcações de pensamentos e posições reciprocamente divergentes e bem nítidas. Ao centro, um pouco à esquerda ou à direita, estarão uma grande quantidade de brasileiros que defende a liberdade econômica, um pouco à direita, assim como aqueles um pouco à esquerda, que defendem as liberdades sociais reciprocamente. Como diria Freud, a saúde mental está no meio e nos polos as neuroses sintomáticas.
É fácil perceber como nos polos estão bem demarcas as instâncias psíquicas inconscientes descritas pela Psicanálise. Por um lado, tendências do Superego, com os ditos conservadores, de direita, a embasarem seu discurso político na imposição da ordem, da regra, do combate à corrupção, no direito de defesa armada. Para além disso, no extremo deste polo estão os radicais de direita, embasados na sintomática obsessiva do Superego, a defenderem a pureza religiosa, a condenar a quebra da moral, assim como demandar de intervenção armada purificadora.

Do outro lado, tendências do Ide, com os ditos progressistas, de esquerda, a embasarem seu discurso político na flexibilização da ordem, na alteração das regras, no avanço "humanizante" do Estado. Para além disso, no extremo deste polo estão os radicais de esquerda, embasados na sintomática histérica do Ide, a defenderem a ampliação do Estado de Bem-estar social, a condenar a rigidez puritana, assim como demandar uma intervenção armada totalitária.

Isto não quer dizer que um indivíduo de estrutura da personalidade histérica ou obsessiva, dirija-se naturalmente a cada um dos polos de maneira inconsciente. Tudo dependerá de outra instância psíquica essencial, a qual faz a mediação consciente dos polos e permite, em tese, a qualquer indivíduo dosar as forças inconscientes de Superego e Ide, da maneira equilibrada: o Ego.

Ou seja, um indivíduo em equilíbrio psíquico, deveria ter condições, a partir do seu Ego (instância psíquica da consciência, seu eu), de identificar excessos e assim evitar tanto radicalizar-se ao Superego quanto ao Ide, sem materializar a sintomatologia das obsessões ou histerias. 

Tal indivíduo, a partir do seu ego maduro, deveria ter condições de colocar-se na condição de sujeito, de indivíduo, ser pensante e único, para além dos coletivismos que o tentam dominar. Ego, acima de tudo, é capacidade de discernir individual e autonomamente. Não ser subserviente a qualquer doutrina moral ou ideológica é indício de maturidade psíquica, facilmente observável na sociedade.

Jung chama esse processo de amadurecimento de "individuação", com o consequente desenvolvimento do Ego consciente e capaz de deter, limitar e ajustar as forças inconscientes do Superego e do Ide, onde cada pessoa avançar psiquicamente em sua trajetória de crescimento existencial.

Historicamente, 30% dos brasileiros tendem a se identificar com a esquerda, enquanto outros 30% com a direita, em suas demandas sociais. Por seu turno, o restante dos 40% de brasileiros tendem a oscilar de um lado ao outro, mantendo-se ao centro e em face das decorrências da realidade.

Tais pessoas mais ao centro, tendem a preservar sua liberdade e individualidade, ao ponto de que, entre tais brasileiros estarão aqueles chamados de Liberais e Libertários. Muitos, com certeza, não se identificam com tais nomenclatura, porém, demonstram tal posicionamento em seus atos inequivocamente na defesa da democracia, da sua liberdade econômica/social e contra a corrupção.

Liberais e Libertários transitam tranquilamente do centro à direita ou esquerda, pois suas posições dizem respeito a forma madura como tratam a liberdade humana, que é dever essencial do Estado. São pessoas contrárias a qualquer tipo de intervenção armada, querem manter a democracia, a liberdade econômica e poder prosperar em suas vidas por seu trabalho. São pessoas moderadas, tem suas opções morais próprias, mas respeitam as escolhas alheias.

Provavelmente, se você não é um radical de esquerda ou direta, você tenha valores liberais ou libertários, sem saber ou querer saber sobre isso. Não há problemas nessa escolha. O importante é utilizar-se do Ego com discernimento, entendendo que o equilíbrio está na mediação entre os polos.

Evitar qualquer tendência de radicalização da sociedade é dever desta parcela de brasileiros mais liberal ao centro. Propagar o discernimento é dever de quem está mais maduro e deve, portanto, colaborar aos mais imaturos radicalizados, para que seus excessos não contaminem o quadro já complexo do Brasil atual.

É essencial que todos entendam a responsabilidade pelo momento atual e colaborem com seus maiores desforços para que nosso país siga o caminho do meio, do equilíbrio da dosagem das forças antagônicas e que, as instâncias democráticas possam sair resguardadas e fortalecidas nas eleições gerais deste ano.