Livre-arbítrio, Decisões Coletivas e o Direito à Autodestruição

Livre-arbítrio diz respeito à livre manifestação de vontade no plano material, quando a pessoa, por sua própria volição, decide, por ação ou omissão, realizar algo em sua vida, capaz de provocar efeitos para si e para outrem. Uma vez utilizado o livre-arbítrio, surge a responsabilidade pelas consequências da sua ação ou omissão. Essa responsabilidade adentra ao campo da Moral do Direito, por implicações diretas nas aprendizagens existenciais escolhidas a seguir. Para escutar o áudio explicativo desta publicação, clique aqui.

O livre-arbítrio não é somente algo individual. Ele pode dizer respeito às decisões tomadas coletivamente em sociedade. Quando um determinado grupo social ou quando toda uma população toma uma decisão majoritária, ela faz uso do livre-arbítrio em nome de todos daquele território, a implicar em consequências mesmo para aqueles que não concordaram com este caminho.

Aqui há uma noção do alcance democrático do livre-arbítrio da maioria , ao submeter o livre-arbítrio individual,  pois mesmo aquele que não concorde com determinada decisão tomada e não possa ser responsabilizado por ela, deverá respeitar e arcar com as consequências.

Adentramos aqui a um questionamento sobre o espaço de defesa do indivíduo, suas opções quando não concorde com aquele velho provérbio popular: "a voz do povo é a voz de Deus". O que poderia a pessoa fazer, mesmo quando vencida pela força coletiva do livre-arbítrio dos demais?

Por exemplo, na Alemanha Nazista, onde a escolha popular pela liderança de Hitler resultou na 2.ª Grande Guerra Mundial; ou ainda no tocante ao que está a ocorrer na Venezuela, com as sucessivas eleições de Chavez e depois Maduro, a ponto de descambar tais Estados Nacionais em processos destrutivos, escolhidos pelo livre-arbítrio da maioria de sua população.

Aquele que não concordou, expressando um caminho discernido e construtivo a ser seguido, antecipando-se à destruição que viria a seguir, não tem uma responsabilidade posterior ao ocorrido, porém, tem uma responsabilidade prévia, pois deveria ter redobrado seus esforços para evitar tal caminho do mal. "Quem cala, consente." Quem se diz apenas responsável por comparecer e depositar seu voto, omite-se em seus deveres cívicos de atuar em prol do discernimento a maior, necessário nesses momentos críticos da historia humana de um povo.

Se há um direito à autodestruição possível de ser escolhido e desejado, em outro polo, há também o direito à evitação deste caminho negativo, enquanto ainda há tempo, forças e capacidade de reverter tal direcionamento nefasto à frente. Logo, há uma responsabilidade individual a quem se cala nestes momentos, visando salvar somente o seu, egoicamente distanciando-se do "front" da batalha vivenciado.   

Mas como assim, a pulsão de morte, a autodestruição pode ser um caminho escolhido e desejado? Para os possuidores de transtorno de conduta social, vulgos sociopatas, sim, essa via é aquele utilizada para se obter o poder totalitário, uma forma de satisfazerem seus desejos de destruição da sociedade, independente das consequências, pois para estes, "os fins justificam os meios".

Para a massa incauta e seduzida pelos populistas da destruição, também não se pode negar o desejo pelo controle totalitário, sua íntima acomodação psíquica à subserviência, à pobreza e à dominação, desde que, em troca, recebam algo miseravelmente concedido por sua servidão voluntária.

Enganados ou ignorantes de sua condição de massa de manobra, a nenhum ser humano se pode retirar a responsabilidade pelas consequências de seus atos conscientes, uma vez que, se há discernimento mínimo em todos, há livre-arbítrio para se fazer escolhas e isso não pode ser negado. Nesse sentido, não há vítimas entre aqueles que escolhem o caminho da destruição.

De um fundamento libertário, se a maioria da população, mesmo sob erro e engodo induzido, escolhe o caminho da destruição, sua escolha faz parte de uma opção existencial a ser respeitada, até que a aprendizagem seja introjetada e o espírito imerso na dor suficiente à sua superação. 

Não que os indivíduos em discordância com esse caminho à destruição tenham que se manter em consonância com seus pares. Nesse caso, caberá à sua livre determinação individual antecipar-se ao pior e, por sua consciência do que virá, além de tentar evitar sua ocorrência, ao mesmo tempo, iniciar os preparativos a um novo caminho ou rota de fuga, para uma realidade fora deste processo em curso.

Apesar de responsáveis, culpados e sócios da destruição, até mesmo para aqueles envolvidos nas escolhas majoritárias a caminhos erráticos, a cada dia poderão utilizar de seu livre-arbítrio e, na primeira oportunidade, abandonar a sua participação e adesão a tal processo pulsional de morte. Se ainda houver tempo, salvar-se a si e aos demais do dreno negro do caos criado.

De todos os modos, sempre a melhor opção consciente ao indivíduo e não esperar a sentença do livre-arbítrio majoritário. Requer-se aos despertos a antecipação das consequências das escolhas e a onde elas poderão levar. Quem assim se antecipa, utiliza do ceticismo enquanto arma, colocando em dúvida tudo aquilo que venha fora do tradicional esperado.

Depois, se confirmada a escolha negativa, quando a maioria clama pelo caos e pela destruição, o pequeno grupo mais consciente deve assumir sua responsabilidade por sua própria sobrevivência e, se o processo de deriva for inevitável, abandonar o barco para que nele naufraguem quem assim escolheu aprendem, pois é seu direito à autodestruição algo a ser respeitado existencialmente.

Você só estará preso a este grupo se se calar quando deveria ter falado. Se se omitir de colaborar ao discernimento maior, por preguiça, desídia ou fraqueza moral. Covardia e acomodação também gera aprisionamento psíquico.

A coragem de defender as melhores escolhas, os melhores caminhos para incentivar decisões coletivas melhores, faz o indivíduo tornar-se um agente de seu história, senhor de seu tempo e de sua esfera de realização humana.

O grande resultado de qualquer pleito majoritário, para aqueles que assumirem as rédeas de seu próprio destino, é o direito à libertação dos pulsionamentos de morte e das pessoas presas a ele. Quebra-se a ressonância, a vibração e, com isso, sua necessidade interprisional de passar pela dor da aprendizagem das formas de destruição escolhidas pela maioria.