Livre-arbítrio, Pulsões e Aprendizagens Esperadas

Dentro do enfoque do livre-arbítrio, os antigos Hindus trabalhavam com conceitos importantes presentes no inconsciente coletivo da humanidade. Por exemplo, a noção de Dharma, o conceito de missão de vida de cada indivíduo, o qual faz sua livre opção em prol do cumprimento de suas tarefas esperadas no todo. A partir das escolhas materializadas, ele fixa então um Karma, ou seja, adentra às leis universais de causa e efeito, colhendo consequências e responsabilidades por seus atos.
Como para os antigos Hindus, o foco de todos os seres humanos encarnados é colaborar à expansão da consciência coletiva, ao aprimoramento espiritual do planeta, o Dharma de cada indivíduo encontra-se ligado ao Dharma dos demais, estando todos ligados de uma maneira inconsciente.

Neste ponto, a Psicanálise ressona com estes antigos conceitos místicos, especialmente a partir dos estudos de Jung, a integrar a noção de Dharma à dos inconscientes individuais e coletivos. Com base nesta hipótese evolutiva humana, de busca da expansão da consciência coletiva, há que se falar nas possibilidades, ou caminhos a serem escolhidos para tais as aprendizagens individualmente.

Do ponto de vista psicanalítico de Freud, a duas pulsões a mover os indivíduos, tem a mesma origem, mas divergem na forma de se materializar psiquicamente. Enquanto a primeira das pulsões, a pulsão de vida, identificada pelo arquétipo de Eros, canaliza as energias psíquicas humanas à construção, por outro lado, a pulsão de morte, identificada pelo arquétipo de Thanatos, canaliza as energias humanas à destruição.

As duas pulsões existem em cada indivíduo e sua presença intercala-se naturalmente no transcorrer de sua existência, dentro dos ciclos temporais. Há um nascer e um morrer em tudo. A cada fase, um rito de iniciação, de passagem, de realização e de extinção. Tudo no mundo orgânico respeita estas leis imanentes e não há nada de errado em se vivenciar naturalmente tais ciclos.

Porém, quando há um processo psíquico de neurotização, perversão ou de transtorno psiquiátrico, o equilíbrio psíquico dos ciclos naturais da vida e da morte é rompido e, então a canalização das energias é drenada totalmente incorretamente à destruição, onde um Karma negativo é instaurado. Neste desequilíbrio existencial observado, o destino do indivíduo desvia-se de sua missão, de seu Dharma e seu papel para a expansão da consciência humana será perdido.

O livre-arbítrio na eleição de um Karma negativo, com predomínio nas pulsões de morte, resultará invariavelmente na escolha de aprendizagens individuais com foco neste polo da experiência. Ou seja, se há uma dualidade entre vida/morte, construção/destruição, ordem/caos, também haverá uma dualidade entre as duas grandes formas de aprendizagem humana: pelo amor ou pela dor. 

Se no mundo ainda predomina as aprendizagens pela dor, é porque este ainda é o caminho inconsciente escolhido pela maioria das pessoas, cujos conscientes ainda pouco são usados para o discernimento correto dos aspectos pulsionais a reger suas existências.

Logo, o despertar do consciente individual, algo também esperado no campo psicanalítico, depende do desforço individual ao próprio discernimento no uso do livre-arbítrio, a iluminar seu caminho a um Karma positivo, cuja decorrência maior é a possibilidade de que cumpras sua missão existencial, coadunando-se ao Dharma recebido.