Mises, Freud e a Castração

Na obra "Intervenção: uma análise econômica", ao seu final, Ludwig von Mises faz uso dos conhecimentos freudianos (ele até chegar a utilizar-se de Freud ao exemplificar a questão da liberdade intelectual desfrutada pelo médico na realização de seus estudos), discorrendo um tópico em seu livro, que se chama "A Grande Ilusão". Pode-se observar ali o centro da proposta civilizatória descrita por Freud, cuja ocorrência depende do indivíduo vir a introjetar a devida castração das regras de vivência social. Sem isso, o indivíduo nega o processo civilizatório, a ponto de querer sua destruição, a partir de seu desejo fálico de ilimitado poder, um sintoma claro de sua retenção neurótica à fase infantil de sua personalidade.

Mises deixa isso claro em seu raciocínio, que começa citando como o fanatismo e a teimosia impossibilitam que os ensinamentos da teoria econômica seja assimilados e sirvam como base de conhecimentos para se evitar as ilusões socialistas. Ou seja, fanatismo e teimosia enquanto resistências indevidas ao processo civilizatório, correlacionando-se tal pensamento ao de Freud.

Daí Mises vem a trazer a noção hobbesiana de que é necessária a castração, enquanto processo de adaptação heteronômica ao indivíduo que nasce em contexto da natureza:

"O homem nasce como um ser egoísta, não sociável, e só com a vida aprende que sua vontade não é a única nesse mundo e que existem outras pessoas que também têm suas vontades. A vida e a experiência irão ensinar-lhe que para realizar os seus planos terá que encontrar o seu lugar na sociedade, terá que aceitar as vontades e os desejos de outras pessoas como um fato e que terá que se ajustar a esses fatos, se quiser chegar a algum lugar. A sociedade não é o que o indivíduo gostaria que fosse." (MISES, 2010, p.110)

Há em Freud também essa alusão a uma percepção hobbesiana do mundo, contrária ao modelo proposto por Rousseau, de homens bons "in natura", desde o nascimento. Para Hobbes, Freud e agora, Mises, o indivíduo tem que aprender que o outro é a limitação social ao seu "eu" naturalmente egoísta. Logo, para viver em sociedade, haverá a necessidade da castração civilizatória deste ego de desejos ilimitados. Tais ajustes são aqueles necessários à introjeção do Contrato Social, ou seja, das regras de convivência (morais e jurídicas)

"O neurótico tenta se proteger desses desapontamentos sonhado acordado. Sonha com um mundo no qual a sua vontade seja decisiva. Só que tiver a sua aprovação pode acontecer. Só ele pode dar ordens; os outros obedecem. Na sua fantasia, é um ditador. [...] Na sua secreta fantasia pensa ser um ditador como César, Genghis Khan ou Napoleão. Na vida real, quando fala com seus conterrâneos, tem que ser mais modesto. Contenta-se em apoiar a ditadura de alguma pessoa. Mas, na sua imaginação, o ditador está ali para cumprir a sua (do neurótico) vontade. Um homem que, não tendo percebido os seus limites, proclamasse que ele deveria ser o ditador, seria considerado insano pelos seus conterrâneos. Os psiquiatras o qualificariam como um megalomaníaco." (MISES, 2010, p.110)

Aqui Mises é categórico ao se utilizar do termo "neurótico" advindo da psicanálise freudiana, até incluir com a megalomania como atos de indivíduos não castrados. À época desta obra de Mises, 1941, a psiquiatria ainda não tinha avançado seu próprio vocabulário, aquilo que para a Psicanálise já era considerado uma neurose paranoica, caracterizada pelos sintomas de megalomania, agressividade e desejo de impor-se autoritariamente aos demais, a partir de um projeto fantasioso de reconstrução da sociedade.

"Quem apoia uma ditadura, o faz por achar que o ditador está fazendo o que, na sua opinião, precisa ser feito. Quem é favorável a ditaduras tem sempre em mente a necessidade de dominar todas as vontades, inclusive a sua própria vontade.[...] Só uma vontade deve prevalecer, só um plano deve ser implementado, qual seja, aquele que tem a aprovação do neurótico, o plano que ele considera correto, o único plano. Qualquer resistência deve ser subjugada, nada que impeça o pobre neurótico de tentar ordenar o mundo segundo seus pianos deve ser permitido - todos os meios que façam prevalecer a suprema sabedoria do sonhador devem ser usados. [...] Essa é a mentalidade das pessoas que constantemente clamam: devia haver uma lei contra isso! E, quer eles admitam ou não, essa é a mentalidade de todos os intervencionistas, socialistas e defensores das ditaduras. A única coisa que eles odeiam mais do que o capitalismo é o intervencionismo, socialismo ou ditadura que não corresponda à sua vontade. [...] Hitler, Stalin e Mussolini constantemente proclamam que foram escolhidos pelo destino para salvar esse mundo. Alegam ser os líderes de uma juventude criativa que luta contra pessoas mais velhas e ultrapassadas. Trazem do Leste a nova cultura que irá substituir a civilização ocidental." (MISES, 2010, p.110).

Neste ponto, Mises é incisivo em sua análise da neurose ditatorial de certas pessoas não castradas. Ele demonstra claramente como a ausência de castração no indivíduo ditador, em não aceitar limites civilizatórios e tentar impor ao todos os demais a sua visão de mundo, é algo altamente neurotizante. Tal deslumbramento advém de sua fantasia (grande ilusão) de que ele é um ser humano ungido, predestinado a ser grandioso (megalomania), cujo projeto de transformação da sociedade é perfeito e que virá para salvar a humanidade de si mesma.

Em altos níveis de transtorno paranoide, dificilmente uma saída pela castração e introjeção da realidade e dos limites será aceita durante a vida do psicótico. No exemplo de Hitler, a fantasia de sua onipotência durou até mesmo quando os soviéticos começaram a invadir Berlim. Para ele, em seu delírio, seria apenas uma questão de tempo para reverter tal derrota.

Para uma pessoa em níveis parciais de adesão fantasiosa e não castração, a tendência é que o final da adolescência ou certos choques com a realidade, como apurações de corrupção, possam trazer a introjeção do discernimento e, assim, ocorra uma libertação imediata da subserviência hipnótica do indivíduo a uma fantasia destrutiva, que só existe por sua não adesão esperada no desenvolvimento regular de sua personalidade, ao processo civilizatório humano.