O Brasileiro Cordial, Histeria e Polidez

Sérgio Buarque de Holanda ao escrever sobre "O Homem Cordial", identificou no brasileiro uma característica cultural arquetípica presente no inconsciente coletivo desta nação. Trata-se da chamada "cordialidade", que se contrapõe à "polidez" verificada em outras culturas. No brasileiro cordial, o contexto de intimidade nos relações sociais é uma necessidade. Se por um lado, tal trato familiar permite um acolhimento, uma candura, uma maneira afetiva de ser característica do povo brasileiro, por outro, vai trazer os problemas emocionais inerentes a uma proxêmica quando surgem as diferenças naturais em qualquer sociedade complexa. Para escutar a análise desta aula, clique aqui.
Amor e ódio, como diria Freud, são inerentes ao sentimento humano. São dois polos possíveis de serem vividos em quem compartilha afetividade, logo, a quem, na vida privada, possui uma conexão. Dentro deste raciocínio psicanalítico, aquele que está fora da vida privada, ou seja, alguém que apenas figure nas relações sociais, não estaria sujeito ao estabelecimento da afetividade direta.

Neste contexto, "o homem polido" seria aquele que, em determinadas culturas, aprende a separar suas relações humanas em dois planos distintos: o plano privado, no qual estabelecerá relações afetivas com seus pares; o plano social, no qual estabelecerá relações públicas, dentro de regras objetivas e neutras de tratamento.

"Seriam engano supor que essas virtudes possam significar 'boas maneiras', civilidade. São antes de tudo expressões legítimas de um fundo emotivo extremamente rico e transbordante. Na civilidade há qualquer coisa de coercitivo - ela pode exprimir-se em mandamentos e em sentenças." (HOLANDA, 2012, p.52)

Assim por um lado, "o homem polido" aparenta-se frio socialmente (assim são considerados povos anglosaxões, nórdicos, orientais) por não permitir transparecer afeto em suas relações sociais, por outro, isto o livra do dever de demonstrar-se afetivamente receptivo a todos. Isto é a civilidade descrita acima por Holanda, quando então há regras sociais a serem cumpridas no trato social, deixando-se de lado qualquer fundo emocional, como acontece para o brasileiro cordial.

Enquanto isso, "o homem cordial" fica nesta pendência de ser aceito pelo outro em sua intimidade, como se isso fosse um balizador claro sobre com quem se realizar socialmente e com quem não. Nestes extremos, "o homem cordial" transformar sua vida numa novela mexicana, acentuando cores e dissabores exaltados emocionalmente, quando, deveria deixar somente para quem está imerso no seu círculo privado de conexões.

Assim, essa falta de noção das esferas não é socialmente saudável e, sem dados para se afirmar com certeza, pode refletir nos altos índices de violência vividos na sociedade brasileira em todos os extratos que se avalie, pois, dentro de contexto de cordialidade, se não há amor, logo, haverá o outro polo, o ódio.

Como diz Sérgio Buarque de Holanda (2012, p.53), falta ao brasileiro introjetar o caráter impessoal de certas relações humanas, onde os relacionamentos ocorrem no seio da sociedade por outras conexões, que não as afetivas (profissionais, empresariais, estatais). Ainda para o autor, a polidez exige ritos para organizar e defender a própria atuação do indivíduo na sociedade, que assim fica, com sua vida privada e intimidade afetiva preservada. Ou seja, uma máscara a proteger o indivíduo da exposição pública de aspectos de sua vida que só a ele interessam.

Enquanto isso, no "homem cordial", há uma necessidade de manter o contexto de familiaridade, de pertencimento e de proximidade com o outro, a reduzir a individualidade perante o coletivo. "O desconhecimento de qualquer forma de convívio que não seja ditada por uma ética de fundo emotivo representa um aspecto da vida brasileira que raros estrangeiros chegam a penetrar com facilidade." (HOLANDA, 2012, p.55).

Tal diagnóstico do arquétipo do "homem cordial" não significa que deveríamos abandonar tal modelo presente culturalmente na formação do povo brasileiro. Entretanto, significa que ela deve ser atenuada, por uma decisão consciente, introjetada, de delimitar o seu campo de atuação. 

Desse modo, tratar relações de cunho social dentro de um ritual de impessoalidade, é algo saudável e necessário. Manter distâncias da intimidade afetiva é psiquicamente saudável, para que não se confunda as coisas e, em face de um trato impessoal, leve-se isso indevidamente ao campo de uma rejeição. 

Há que se entender que, a manutenção da distância, nas relações sociais, é uma prerrogativa da outra pessoa com quem se trata. Logo, se você também entender o quão importante é manter-se assim nas relações sociais, poderá estabelecer mais qualidade no trato das questões públicas, enquanto reservar a quem realmente merece a sua atenção afetiva, o melhor de sua personalidade.

Voltando à questão psicanalítica das estruturas humanas, enquanto o cordial centra-se numa estrutura histérica, o polido centra-se numa estrutura obsessiva. Tais conteúdos estruturantes não estavam disponíveis à análise de Holanda. Deste modo, apesar de sua correta leitura sobre a realidade, podemos agora avançar na análise do assunto.

Desse modo, enquanto ao histérico o prazer do afeto proximal faz do brasileiro cordial, com os problemas inerentes a isto, qual sejam a ausência de apego aos rituais e regras necessários à impessoalidade dos relacionamentos sociais, por outro lado, ao polido sobram tais características. Entretanto, a estes últimos faltam a fluidez e o "calor humano" social, pelo qual os brasileiros são conhecidos mundo afora.

Em nosso caso, o ideal seria um avanço estrutural à dosagem. Uma necessária introjeção dos ritos da impessoalidade, para que as relações sociais sejam mais leves e objetivas, sem que adentremos a afetos quando isto não é o esperado, aprendendo a separar a vida nas esferas privadas e sociais.

Outrossim, há que se aprender que, sem que sua ausência de tais separações profiláticas, a histeria do cordial pode implicar numa leitura errônea do encontro humano, como se houve algum tipo de desgosto ou até mesmo se considere inimizade que age sem interesse de estabelecer afetos.

Frustrações, nestas situações, neuroticamente podem levar os histéricos mais carregados ao polo do ódio, transformando situações impessoais em conflitos desnecessários e indevidos. Quando o outro, que somente quer manter certo distanciamento (o que é direito seu), e acaba sendo rotulado negativamente e até agredido, isso deixa de ser condizente com o ocorrido na realidade dos fatos ou o esperado em relações sociais polidas, dentro de regras objetivas de trato social.

Além disso, a neurose histérica do homem cordial e sua necessidade de ser aceito afetivamente e integrar os demais em relações de intimidade familiar, acaba por atrapalhar o espaço da individualidade do brasileiro. Aos moldes de um adolescente, ele passará a vida buscando ser aceito por grupos sociais que, até por uma questão das dificuldades de sobrevivência neste país, exigem algum tipo de coletivismo patológico.

Há que se aderir, aceitar e não divergir, pois discordar implicaria nesta quebra de afeto. Daí os coletivismos patológicos, como se o indivíduo não pudessem ter suas próprias convicções, a partir de seu discernimento, formulando concordâncias e discordâncias, sem que isso resulte numa sentença de seu afastamento ou adesão ao grupo. Nitidamente, uma retenção à fase da adolescência, quando isso faz parte da vida dos jovens, mas completamente indevido, quando se trata de adultos.