O Instinto de Liberdade e o Instinto de Servidão: a quebra da fantasia de busca do "Messias" salvador
Teremos realmente um instinto natural de busca pela liberdade ou, de maneira adversa, uma necessidade até genética, de permanecer em servidão? Quando se olha os animais com instinto gregário, ou seja, que vivem em grupos, pode-se observar o predomínio das sociedades onde há um líder que, pela força, domina e exerce seu poder sobre os demais. Seria essa, uma natureza atávica do ser humano, uma necessidade inconsciente de ser dominado por um "Messias" a comandar a sua vida?
São raras as espécies de animais gregários onde cada indivíduo, por sua conta própria conduz sua existência com liberdade, mantendo-se a certa distância dos demais, com os quais sem servidão, poderá interagir em determinados momentos, todavia, sem dependência. Nesses casos, como uns servem aos outros e impera a liberdade entre todos, não há espaço para um líder, um "Messias" dominador.
Chegar a isso, seria o grau mais avançado de realização humana, quando a relação com os demais se faz em nível de cooperação e não de servidão, exploração ou submissão. Porém, seja algo inerente à cultura de um país, as dificuldades de cada economia ou a própria constituição individual débil (genética, emocional, mental), sempre haverá relação de dominadores e dominados, estabelecidas em forma de poder imposto de todos os tipos, desde os mais sutis até a mão armada.
A questão central então, não é a busca pela extinção das relações de dominação, mas sim, o quanto uma sociedade permite e possui de indivíduos cujo instinto de liberdade deles está acima da imposição de servidão. Nesse sentido, em havendo mais indivíduos em determinada sociedade, dotados do instinto de liberdade capaz de frear o atavismo da servidão, haverá mais tendência a esta nação libertar dos "Messias", populistas e dominadores sociais do gênero.
Em Psicanálise, nos atendimentos individuais, é possível verificar indícios da resposta à questão formulada logo de início, todavia, caso a caso, na verificação e no transcorrer da análise de cada paciente. Muitos, sob pretexto de utilizar isto como mecanismo de resistência e até para abandonar o tratamento, responsabilizam o terapeuta por ser "fraco", ao não lançar uma solução para o dilema psíquico vivido.
No fundo, quem esta sob o julgo do instinto de servidão busca saídas fáceis de uma "pílula salvadora", capaz de, dentro de um pensamento mágico e fantasioso, acabar com seus problemas emocionais construídos por toda uma vida, apenas em algumas semanas de terapia psiquiátrica. Ou ainda, com o analista sendo responsável identificado como o "Messias" da vez, responsável por indicar caminhos e soluções.
Como não há cura em Psicanálise e a função do terapeuta não é a de servir enquanto um "oráculo de Delphos" dos problemas de cada psique, a frustração é ainda maior com este tipo de terapia para os imersos no instinto de servidão, pois o aparente silêncio do psicanalista, quanto aos caminhos de "cura" a serem seguidos, os faz desprezar o analista, por não se apresentar, aparentemente, com o "falo" da dominação esperado.
Psicanálise tem em sua essência a liberdade e por é de natureza libertária, com a qual o terapeuta irá conduzir seu trabalho, visando que, no transcurso do processo, o próprio paciente construa suas saídas e soluções, para que possa atingir uma autonomia decisória do viver. Neste processo de construção da livre individualidade, caberá ao sujeito superar seu grau de dependência aos coletivos disfuncionais em sua vida, até que possa dosar uma área de conforto emocional, com a qual consiga seguir em equilíbrio dinâmico por seus próprios passos, sem ser aderente à fantasia da servidão.
Nitidamente, quem busca a Psicanálise deve ter em mente esse caminho de libertação proposto. Muito além do que esperar que uma pílula mágica, ou um "Messias" salvador faça o serviço por você, o desconforto do tratamento psicanalítico só promete uma coisa: que as dores do crescimento psíquico, ocorridas ao se confrontar a fantasia de servidão em prol de uma futura libertação do ego para a realidade, só cessarão quando o próprio individuo decide tomar as rédeas de seu destino e enfrentar seus dilemas existenciais.
Ser cordeiro é fácil. Receber ordens, sujeitar-se à servidão dos lobos messiânicos do caminho também. Nada mais esperado da maioria. Esperar que parte desses indivíduos tornem-se, na verdade, cães pastores, a guiar-se livremente em face dos coletivismos castradores é uma utopia libertária, mas necessária de ser colocada em prática com a Psicanálise Jurídica.
