Resistência Psicanalítica Estamental

Quer um país melhor, mais justo, mas não quer mudar nada, mantendo todos os privilégios, benesses e gastos públicos sem sustentabilidade para tanto? Você pode estar em resistência psíquica, algo muito comum nos settings psicanalíticos, quando a terapia chega naqueles pontos centrais da neurose do paciente e este, por vezes de maneira inconsciente, tenta evitar o enfrentamento daquela situação doentia que, até aquele momento, parecia ser adequada e certa.
Quando a resistência aparece, o paciente reage ao tratamento, com várias formas de evitar, consciente ou inconsciente, o enfrentamento daquele ponto complexo de sua neurose. Alguns até desistem de seguir em frente, abandonando o processo psicanalítico para nunca mais voltar a tocar no assunto.

Se na esfera íntima, pessoal, é assim, com a pessoa motivada a ir procurar tratamento para melhorar sua qualidade de vida psíquica, imaginem como é mais complexo quando a resistência às mudanças diz respeito a questões sociais, culturais e há muito estabelecidas e cristalizadas na estruturação do Estado.

Logo, há grande resistência da sociedade a mudanças de conceitos arraigados no inconsciente coletivo de um determinado país. Por exemplo, no Brasil, ainda hoje, depois de todos os adventos e provas do maior esquema de corrupção do planeta e da história, envolvendo empresas estatais, o povo brasileiro ainda é, em sua maioria, contrário às privatizações, segundo últimas pesquisas.

Basta tocar no assunto, que a resistência aparecerá. E aqui não se fala da resistência consciente, ideológica, mas sim, daqueles conteúdos introjetados no inconsciente individual de cada um, sobre o assunto, que evitam ou colocam o indivíduo emocionalmente incomodado, sem que se possa avançar num debate racional dos prós e contras de cada caso e de cada empresa. Nessa toada, até fábrica de camisinhas o Estado brasileiro atualmente possui.

Outra questão nevrálgica, é o inconsciente coletivo do "Estamento Burocrático" brasileiro. É sonho nacional ser funcionário público e ascender às vantagens garantidas vitaliciamente pelo Estado. Mesmo dentre aqueles que dificilmente conseguiriam galgar tais posições, há uma aceitação tácita de que os vitoriosos nessa concorrência sejam merecedores de benefícios, muito acima daquilo que a  maioria dos brasileiros conseguem obter em seus trabalhos.

Não se pode nem falar em limites aos gastos com funcionários públicos, que já estará lá, a resistência imediata do "Estamento Burocrático" a qualquer mudança de rumo, constrição de gastos, vantagens e benesses. Basta um liberal/libertário querer levantar esta bandeira, que será odiado prontamente.

Este é um problema grave da cultura pública brasileira, cujo enfrentamento não se faz em curto prazo. São mudanças de mentalidade lenta, graduais, que devem ser feitas a todo momento para ir se superando a resistência inconsciente aos pucos.

Há que se formar um novo inconsciente coletivo sobre o assunto, o que não significa acabar com o trabalho de servidor público, porém, ajustá-lo à realidade do país. Isto demandará o desforço daqueles mais conscientes, para que, aos poucos, as coisas avancem e se equalize passo a passo, esse foco da desigualdade no Brasil (já está em resistência ai?).

Prioritariamente, cabe aos próprios agraciados e participantes do "Estamento Burocrático" começar este trabalho. É essencial parar de se reivindicar mais e mais do Estado, aceitar que limites de orçamento público existem e todos tem seu dever de limitar-se para o melhor do país.

Com certeza, algum mal-estar deve ter sido sentido na leitura do parágrafo acima, por algum membro do "Estamento Burocrático". Se você se sentiu mal, mas conseguiu continuar a leitura, parabéns, seu nível de resistência poderá ser superado. 

Se você sonha com um cargo público ainda não obtido e também se sentiu mal, mas continuou a leitura, saiba que não há nada de errado em desejar uma condição melhor de vida, sendo um "SERVIDOR" da sociedade. Porém, todo o seu esforço por uma vaga na burocracia do Estado, não traz conjuntamente o direito de estar acima dos demais brasileiros, sem as mesma sorte.

Limites são a medida da Psicanálise. Sem limites, adentra-se à chamada perversão, cujo foto está na realização destrutiva da busca incessante por prazeres e desejos. Limites são a expressão de um Superego saudável e todos. Membros do "Estamento Burocrático" tem o dever de servir à sociedade e aos demais, pois é do desforço dos demais, dos impostos retirados de sua renda, de onde sai o seu pagamento.

Melanie Klein, um das expoentes psicanalistas, tinha uma medida de adequação do Supergo x Ide, para se avaliar a saúde de uma personalidade. Ela usava dois parâmetros discursivos básicos: Inveja x Gratidão. Uma pessoa em desequilíbrio existencial, tender a demonstrar inveja, insatisfação material, olhando somente para seu umbigo demandante a querer mais e mais. 

Já uma pessoa em equilíbrio existencial, tende a olhar com gratidão pela vida, por tudo o que tem, pelo conforto e oportunidades recebidas. Tenderia a olhar os demais com empatia, sem resistência, pensando em como poderia efetivamente ajudar a sociedade a que mais pessoas possam atingir esse padrão vivenciado. Se você já faz isso em seu cargo público, ajude-nos a ampliar e irradiar esta ideia a mais funcionários públicos, pois o exemplo fático de vida é o melhor professor, segundo Jung.

Talvez seja este o caminho para transformar o inconsciente coletivo negativo do "Estamento Social" brasileiro em algo menos produtor de desigualdade e que, com o passar dos anos e da modificação das mentalidades, de geração em geração, cada vez mais a renda e as condições de realização econômica privada, possam ser parelhas e assim, menos desiguais para o maior número de pessoas possível.

Interessante observar que, liberais e libertários são os únicos a publicamente se posicionarem pela imposição de limites à gastança desmensurada do Estado, porém, acabam sendo impopulares e sofrem grande resistência psíquica. Populistas, por seu turno, vendem irresponsavelmente a ilusão do paraíso em terra, fantasia que é muito mais agradável, do que a aridez da realidade e assim, ganham votos e colaboram para o caos nas contas públicas, que retroalimenta a dependência e a ignorância eterna dos votantes.