Existem momentos propícios para se fazer uma análise sobre os costumes a e cultura de determinado local. Especialmente quando o espetáculo encerra-se, surge uma pequena janela de oportunidade para que os olhos, ainda imersos na fantasia do show, tenham uma transição até se acostumarem com o ascender das luzes do picadeiro e a abertura dos portões de saída.
Primeiramente, deve-se ter em mente a existência de pessoas que não gostam de futebol. Para essas, tal análise não seria condizente, uma vez que os efeitos da magia do espetáculo de chuteiras sobre a bola não as atingem. Elas são naturalmente imunes aos reclames do futebol. Passam à par de sua contínua sequência infindável de jogos, torneiros, e seu ciclo repetitivo sem fim. Para essas pessoas, há um nada ali, pois trata-se um vazio de sentido em se acompanhar tal forma de esporte profissional.
Sem adentrar às valorações sociais, quem não adere e não é fá de determinado esporte de destaque local, não tem nenhum problema psicológico com isso. É apenas alguém diferente. Alguém com outro tipo de repertório de preferências, nas quais aloca sua atenção, por fatores pessoais em outros focos de lazer.
Claro que existem também aqueles mais exaltados. Não somente em desprezar a seara futebolística, mas também ao colocar-se contra ela, ressaltando aquilo que classicamente seria a chamada política do "Pão e Circo", realizada para ludibriar as massas e as colocar em alienação premeditada perante a realidade. Para estes, quando mais rápido o espetáculo for encerrado, mais rápida será a necessidade da população deixar a fantasia e retornar seus olhos para a realidade.
Em tempos eleitorais, até seria apropriado esse argumento dos anti-futebol. Nada mais fantasioso e atrator das atenções do que campeonatos mundiais, para quem vive numa pátria de chuteiras. No fundo, eles desejam que as frustrações sejam exaltadas com a quebra da fantasia futebolística e tais energias representadas sejam então encaminhadas ao enfrentamento dos problemas da realidade.
Mais além deste pequeno grupo de pessoas, há aquelas que tem no futebol apenas mais um meio de diversão social eventual. Enquanto maioria da população, são os chamados torcedores eventuais. Aqueles que, em jogos especiais dos seus times, em finais de campeonato, em dias eventuais podem voltar sua atenção a esta forma de lazer e diversão.
Neste grupo de preferências saudáveis, a fantasia futebolística apenas ocupa aquele espaço lúdico da vida social, onde o que se quer é interagir e divertir-se. Se não existe fanatismo, os níveis de alienação futebolísticos serão aqueles mesmos observáveis em quaisquer outras atividades de lazer humanas. Ou seja, canalizações saudáveis da psique, com fins saudáveis de interações sociais.
Neste grupo de preferências saudáveis, a fantasia futebolística apenas ocupa aquele espaço lúdico da vida social, onde o que se quer é interagir e divertir-se. Se não existe fanatismo, os níveis de alienação futebolísticos serão aqueles mesmos observáveis em quaisquer outras atividades de lazer humanas. Ou seja, canalizações saudáveis da psique, com fins saudáveis de interações sociais.
Porém, se houver qualquer tipo de fanatismo futebolístico, estaremos diante de algum quadro alterado de percepção da realidade, onde o indivíduo aloca toda sua convulsão psicológica interna em algum alvo externo (time, jogador, campeonato), como forma de suportar a si, sem saber que tal saída, na verdade, também o aliena dos problemas postos na realidade, com os quais não consegue lidar.
Já do ponto de vista da minoria dos perversos de plantão, uma pátria de chuteiras pode ser o mecanismo diversionista ideal para a realização de atos contra a população. Por exemplo, em plena Copa da Rússia, o governo Putin aproveitou a situação para votar uma reforma da previdência impopular (clique aqui).
Ilusões ou alienações à parte. O fato é que, o Brasil é uma pátria de chuteiras e, independente dos resultados de um ou de outro torneio, este ainda será o esporte favorito de grande parte da população. Uma vez sabido dosar sua pulsão futebolística, nada mais a declarar sobre o assunto, uma vez que entre o odiar o futebol e as paixonites fanáticas, há espaço para o lazer sadio e positivo de quem assim quiser alocar sua atenção e diversão, sem alienação da realidade.
