Há um pequeno livro chamado "Sobre Sentimentos e a Sombra", que compila uma pequena parte do pensamento de Carl Gustav Jung, especialmente ao tratar dos arquétipos da maldade e das suas repercussões individuais nas sombras de cada personalidade. Trata-se de uma tradução de alguns de seus encontros com seus interlocutores, realizadas entre 1955 a 1961 em Zurique, Suíça.
Chama atenção na obra a questão dos arquétipos dos deuses mitológicos gregos. Jung dá bastante atenção à figura mítica de Zeus, um arquétipo bem denotado na história da humanidade, em líderes e pessoas de poder social. A adesão a este arquétipo tem tanto seus ganhos como suas perdas, uma vez que, até mesmo tal modelagem inconsciente construída na história humana, tem suas sombras.
Por sombra Jung entende a parte obscura e negativa de qualquer personalidade, a parte falha, os defeitos, as escolhas equivocadas, os erros e aquilo que nos faz, em última instância, sermos humanos. Portanto, para Jung, todos temos nossas sombras e, conforme aderimos a certos arquétipos do Inconsciente Coletivo da humanidade, introjetados elas em nossa vida.
Zeus, sem dúvida, é um arquétipo importante para a humanidade. Ele possui a dádiva da construção da vida, da liderança. Sua modelagem inconsciente, enquanto um velho sábio de barbas brancas, sentado em um trono no Olimpo, local moradia dos deuses, situado muito acima do território da vida humana, é algo que está em todas as nossas mentes. Pense um pouco sobre a imagem de Deus na sua mente, e veja como ela é impregnada por tal modelagem mítica grega.
Do lado positivo, Zeus é o senhor da vida, aquele que controla a tudo e conduz a humanidade em seu caminho de construção civilizatória. Severo, tal deus mítico não aceita ser contrariado. Suas decisões, se contrariadas, podem gerar uma irá de raios sobre os inconsequentes. Logo, sua presença marcante e rigidez exigida é algo marcante nas formulações das religiões que vieram a seguir, especialmente na história do mundo ocidental.
Porém, são as sombras de Zeus que causam o problema. Na verdade, as sombras de Zeus não são por ele expressas. O lado destrutivo de Zeus está expresso em seu irmão, Hades. Enquanto irmão que governa o mundo inferior e dos mortos, a Hades é dado todos os traços mais marcantes que as sombras humanas podem atingir. Guerras, destruição social, falhas morais, negatividades, todas elas estão sob o julgo de Hades. Não é à toa que ele é identificado como o diabo, o satanás nas religiões ocidentais e habita o inferno (umbral, mundo inferior).
Daqui podemos tirar a lição principal desta pequena obra retirada dos encontros e das rodas de conversa de Jung: tais arquétipos estão todos em cada um de nós. Logo, tanto você pode acessar o lado Zeus que existe em você, como o lado Hades, dando vazão as suas sombras pessoais.
"O fantástico nisso tudo é como as pessoas chegam a essas ideias arquetípicas. Mas isso tem a ver com o fato de todos nós termos um inconsciente coletivo que contém ideias desse tipo." (JUNG, 2014, p.42)
Para Jung (2014, p.53-60), o arquétipo do mal pode ir além de nossas sombras, quando ele vence as forças de contenção moral e passa a influenciar o direcionamento da existência do indivíduo. Seria a vazão ao "pecado original". São Nicolás de Flue, visando escapar dessa sina, da força arrebatadora desse arquétipo do mal sobre si, abandonou sua vida familiar e seguiu como um eremita em peregrinação. Os atos daí decorrentes o levaram até a santificação.
Talvez esse seja o maior traço a ser buscado por quem não quer dar vazão ao arquétipo de Hades em si. Muitas vezes, o propósito da luta interna contra a sua própria sombra, visando com todo o desforço evitar-se a adesão ao arquétipo do mal, são uma das maiores características admiráveis nos seres humanos que contribuem decisivamente para a civilização.
Em Psicanálise Jurídica e Direito Libertário, esses seriam o cerne da análise da ocorrência, primeiramente, a consciência e a liberdade da escolha e, daí, a sua responsabilidade pelas consequências de seus atos, ou a sua libertação desta interprisão.
Em Psicanálise Jurídica e Direito Libertário, esses seriam o cerne da análise da ocorrência, primeiramente, a consciência e a liberdade da escolha e, daí, a sua responsabilidade pelas consequências de seus atos, ou a sua libertação desta interprisão.
Na obra, Jung (2014, p. 62) demonstra que o importante não é só observamos como lidamos ou lideramos com as pulsões de nossas sombras, mas também como as sombras lidam conosco. Como suas forças são capazes de aprisionar um indivíduo a ponto dele agir aos moldes de um Hades contemporâneo, um escravo da destruição, sem se dar conta dessa dominação sobre si.
Por outro lado, Jung (2014, p. 66-67) em nenhum momento defende a negação das sombras, omitir-se ou focar-se numa superficial camada de bondade encobertadora para se atenuar as sombras individuais. Parodia ao dizer que não existem tigres vegetarianos que só comem maçãs, como se com tal fantasia sobre a natureza instintiva fosse possível se afastar as próprias sombras ."Quem não abriga os opostos dentro de si não está vivo, ao invés disso, é um neurótico morto que apenas geme, mas não vive".
Como todos estamos ligados ao Inconsciente Coletivo, a realidade, entendida como o "mundo em movimento" e conforme as realizações individuais assentamos nossa personalidade, o livre arbítrio está na escolha que fazemos dos arquétipos existentes e à disposição de cada indivíduo, conforme seu ambiente. "E assim como o corpo consiste em diversos órgãos, a psique também consiste em diversos arquétipos, em formas inatas". (JUNG, 2014, p. 79).
Dessa feita, a negação do mal não é o caminho para a sua evitação. Assim como no exemplo de vida de São Nicolás de Flue, são as ações efetivas, contrariando as forças internas, a única saída que depende de nossa "psique objetiva", algo que está sob o controle de nosso consciente. Canalize na prática sua vida para luz e produza luz. Canalize para as sombras e produza trevas.
Se ambas as opções estão em cada ser humano, escolhas e responsabilidades pelos resultados obtidos devem ser expostas. Por fim, é das somas das escolhas individuais dos arquétipos predominantes o resultado civilizatório obtido em cada sociedade. Para o melhor ou para o pior, tudo são escolhas cuja realização a história já documentou e o presente insiste em reavivar a cada nova geração.
Ouça agora o áudio no Podcast (SoundCloud) desta resenha, clique aqui.
Se ambas as opções estão em cada ser humano, escolhas e responsabilidades pelos resultados obtidos devem ser expostas. Por fim, é das somas das escolhas individuais dos arquétipos predominantes o resultado civilizatório obtido em cada sociedade. Para o melhor ou para o pior, tudo são escolhas cuja realização a história já documentou e o presente insiste em reavivar a cada nova geração.
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