Talvez nenhuma outra arte tenha captado tanto um arquétipo da Justiça nos tempos atuais, como a escultura em bronze intitulada "Survival of the Fattest", de Jens Galschiot e Lars Calmar. Ela demonstra simbolicamente como o Estado, para manter sua burocracia jurisdicional, a pretexto de realizar a justiça, acaba por, paradoxalmente, gerar o contrário, a criar desequilíbrios flagrantes.
Interessantemente, quanto mais se clama por justiça, por direitos, mais presença estatal é exigida sobre a sociedade. Tal demanda por "ingerência" estatal parte de uma fantasia de que, uma vez que o Estado chama para si a responsabilidade de conferir mais direitos, mais igualdade e inclusão poderá ser gerada por ele. Será?
Pela Psicanálise, toda fantasia deve ser avaliada por seu "gap" com a realidade. Este é o melhor medidor do exato nível inconsistente dessas ilusões. Ou seja, quanto mais distante da realidade, mais neurótica seria uma ideia, no sentido de que, suas distorções lógicas não a permitiriam gerar aquilo que efetivamente se espera delas, na vida das pessoas.
No caso desse clamor por mais Justiça e, logo por mais Estado que implemente tais direitos focados na busca por igualdade, esquece-se dos custos inerentes em se aumentar a máquina pública. Há ainda um aviltamento dos custos, proporcional aos poderes atribuídos, porque tais pessoas (as obesas no caso da obra de arte), demandarão para si um status de importância, a requerer grandes privilégios para o exercício da sua função.
Isso se chama "supremacia do ente estatal", com o indivíduo que ocupa tais cargos estatais a usufruir de um grau de poder e privilégios distópicos, a ponto dele se colocar acima dos demais, justificando-se, em termos "meritocracia", merecedor da quebra do próprio princípio da igualdade ao seu favor.
Nada mais injusto do que pedir privilégios para se gerar justiça social, uma vez que, assim, na realização fática deste ato, produzirá exatamente o seu oposto, ou seja, mais desigualdade social, por meio da apropriação de recursos públicos. Recursos esses, confiscados das rendas da população, a partir de uma tributação excessiva e iníqua, cujo maior prejudicado são os próprios e pretensos beneficiados por tais políticas de igualdade.
Há então, uma falha neurótica de coerência nesses atores públicos, seja ela por inconsciência deste mecanismo em curso, ou por perversidade manifestada em premissas de acúmulo de poder, dinheiro e status. Em todos esses casos, há uma autoimagem narcísica enviesada sobre si, uma ausência de empatia, ao se colocar credor e acima dos demais indivíduos e da sociedade.
A quebra dessa prisão mental ou libertação deste modelo Injusto de Justiça demanda recusar a carga da servidão ao Estado. Há que se ter a consciência de que não se pode pedir justamente ao Estado, o maior produtor de desigualdade, que produza igualdade compulsoriamente. Logo, pare de pedir por direitos, benefícios e tutela estatal, isto só alimenta e legitima os ocupantes dos cargos públicos a buscarem a sobrevalorização de suas funções e, logo, mais e mais privilégios.
Pare também de adular autoridades públicas como se elas fossem "a última bolacha do pacote". Não, elas não são, são meros servidores da população e, quanto mais bem pagos e com mais privilégios, mais devedores são da sociedade, mais devem ser fiscalizados e mais resultados devem apresentar, para provar que justificam o que recebem. Sem isso, não será nunca quebrada essa fantasia da "supremacia do ente estatal."
Ter postura mental combativa é essencial na sociedade atual, pois sem ela será colhido mais do mesmo, ou seja, cada vez mais recursos drenados para se aumentar os privilégios de quem já os tem, visando uma pretensa ação em prol de todos que, na prática, nunca ocorrerá. Porém, há que se ter coerência, discernimento, elegância e foco neste combate. Este é um alvo prioritário de combate dos libertários nos dias atuais.
