As Fantasias Socialistas do Paraíso em Terra

Uma das sacadas do Socialismo Utópico foi associar a ideia religiosa do paraíso pós-morte, à possibilidade, ainda que infactível, de antecipar tais ocorrências no mundo material, num futuro incerto. Porém, no Socialismo Científico, também conhecido como Marxismo, tal utopia passou a ser tratada como algo que poderia ser alcançado, uma vez que se utilizasse à força o controle e o direcionamento, mesmo que involuntário, da humanidade para tanto.
Como a história mundial acabou por demonstrar, o fracasso das teorias marxistas em todos os lugares do mundo só demonstraram que, paradoxalmente ao esperado nas fantasias do paraíso em terra, o que se obteve onde o Socialismo foi implementado, foi a produção do inferno em vida.

Mas porque isso ocorreu? Porque o seu paraíso é seu e de mais ninguém. Uma vez que ele é imposto, a liberdade de escolher seus próprios caminhos fica proibida e cada um passa a viver o mínimo de seus potencialidades. Se não há liberdade, como você vai poder dar vazão aos seus próprios sonhos?

Faça um teste psicológico básico para entender algo mais sobre essa fantasia psíquica do paraíso em você. Feche os olhos e veja na sua cabeça, qual é a imagem de paraíso que vem à mente. Agora, abra os olhos e digite no Google ou em qualquer acervo de fotos digitais, a palavra paraíso (heaven). Veja e compare o que você observa.

Geralmente, a imagem de paraíso está associada a locais intactos com natureza abundante. São imagens de muita estética natural e, principalmente, pouca ou nenhuma presença de pessoas. Isto, não há a presença de pessoas nas imagens de paraíso disponíveis no inconsciente coletivo humano!

Para Freud, isto ocorre porque a fantasia de paraíso busca sua validação nas memórias primordiais do indivíduo, quando, durante sua curta estada no útero materno, tudo à sua volta parece ser uno, prazeroso e somente seu. Desse modo, no paraíso uterino não havia o outro, o espaço para a frustração ou para a castração diante daquilo que não se pode ter.

Daí que, para Freud, o nascimento é a primeira e mais trágica frustração humana. Quando o indivíduo deixa seu paraíso pessoal para adentrar a um mundo de dor, carência, ausência, escassez e, acima de tudo, dependência alheia, a qual se apresenta inicialmente pelo seio materno (a primeira alteridade humana).

O choro, sinal da falta, da necessidade, da espera pelo alimento advindo do outro irá formatar o cérebro do infante e prepará-lo para aquilo que ele fará por toda a sua vida: uma busca contínua e inconsciente pelo paraíso uterino perdido e que nunca mais será encontrado.

Tal busca é o motor da vida, o motor do ego humano nas realizações e construções que ele fará para transformar o mundo real, em algo mais confortável e mais próximo de sua imagem primordial de paraíso. Sem nunca atingir a satisfação esperada, uma vez que realidade do outro estará presente, a busca é continua e nunca acaba. Daí caracterizar o ser humano enquanto "o ser faltante".

No texto "Utopianismo: um dos grandes obstáculos ao progresso", Chelsea Follett, demonstra como o mundo e a população mundial nunca estiveram em tão boas condições existenciais. O avanço dos índices de qualidade de vida, saúde, educação e renda, nunca foram tão bons e tão disseminados entre os países. Cada vez mais pessoas avançam em desenvolvimento e são incluídas em melhores padrões de vida e acesso ao consumo (para ler o texto, clique aqui). 

Porém, nada disso parece ser suficiente nas mentes de cada vez mais jovens, cuja ilusão de que uma revolução poderia ser o melhor e mais rápido caminho ao paraíso socialista é enaltecida inconscientemente. Ou seja, a neurose inconsciente da busca individual do paraíso uterino é instrumentalizada e colocada de maneira a converter indivíduos em coletivos acríticos, a serviço de um projeto de domínio social, com resultados históricos totalmente contrários ao paraíso esperado.

Se a insatisfação é algo natural de cada pessoa, na busca de seu espaço de equilíbrio, onde cada indivíduo deverá produzir as próprias saídas ao seu "ser faltante", canalizá-la a uma visão deturbada dos avanços no mundo atual, acaba por indevidamente gerar um quadro neurotizante (histérico) de permanente pessimismo, acentuada insatisfação, frustração e ressentimento.

Parece fácil dizer que para superar esse quadro basta focar-se nos dados de realidade sobre o atual quadro positivo de avanços sociais e econômicos por todos os lados do globo. Porém, isso não é suficiente, na medida em que, ao se aceitar que o mundo vai bem e avança em prol da melhoria de todos na média, volta-se o foco de luz para a própria individualidade.

Se problema maior deixa de ser o mundo desiguale passa a ser você, suas dificuldades pessoais, seus desafios, a necessidade de esforço pessoal na busca de algo melhor para si, que ninguém fará no seu lugar, a coisa tende a ser evitada por mecanismos de defesa do ego.

Daí as racionalizações ilógicas observadas, nas negações da realidade e até a fúria com quem se tratam todos aqueles que ousam questionar a fantasia socialista proposta. Quem diverge passa a ser o inimigo do bem, da busca do paraíso e da bondade em terra e, logo, a partir de rotulagens propositalmente negativas, passa a ser alvo de uma violência manifestamente incoerente com o que se diz defender. 

A saída, nesses casos, além de se buscar os dados da realidade de um mundo em constante melhoria, está em focar nos pontos positivos da própria personalidade. No foco nas virtudes individuais, na realização daquilo que lhe dê prazer, oportunidade de realização e real contribuição para um mundo melhor, a partir do desforço, sacrifício e dedicação.

Amadurecer é preciso. Isto se faz pela dor ou pelo amor. Façamos pelo amor, enquanto ainda é tempo e enquanto os justiceiros revolucionários apenas exitem e reverberam suas fantasias nas redes sociais.