Destruição Social e a Indevida Resposta Histriônica

Vamos tratar aqui de um tema central que envolve Direito e Psicanálise. O pressuposto inicial é o de que a ordem fornecida pelo Direito é essencial à sadia qualidade de vida humana. Sem ordem e sua devida imposição estatal, chega-se ao caos e à insegurança jurídica e social. Em Teoria Geral do Estado, essa seria a função inicial e essencial do Estado: garantir a paz social.
A partir deste primeiro postulado, o Estado começa a ganhar outras responsabilidades, como garantir liberdades qualificadas aos seus cidadãos, quando cada qual é soerguido a condições mínimas de saúde, educação e renda, momento em que, poderá seguir suas próprias opções na busca do que é melhor para si, em conformidade com seus esforços pessoais.

Como poderá ser observado, uma vez efetivada tais funções estatais no seu mínimo esperado com efetividade, o Estado teria cumprido sua função de existir e a legitimar sua existência, para aqueles que a defendem.

Porém, quando isto não ocorre e as instituições públicas perdem sua eficácia e respeitabilidade em face destruição social observada e vivenciada pela sociedade, respostas neuróticas defensivas são esperadas. Elas acabam por acentuar comportamentos e pensamentos contra o grau de disrupção do tecido social, enquanto respostas individuais psíquicas.

Personalidades histéricas, dentro de um contexto psicanalítico, não necessariamente são seres sem saúde mental. Em equilíbrio vivencial, uma personalidade histérica apenas seria um cidadão focado em viver de maneira confortável, focado em realizações prazerosas ou, ao menos, capazes de evitar grande parte dos desprazeres.

Visto isso, pode-se imaginar que todos seriam assim. Para Freud, grande parte das pessoas o são, entretanto, ao lado de um outro grande grupo de personalidades chamadas de "obsessivas", as quais focam seu prazer existencial no cumprimento das regras e dos rituais sociais.

Em face de um quadro de destruição social, as respostas destes dois grupos de indivíduos serão diferentes. Para os obsessivos, o caminho seria exigir mais ordem, mais regras e mais força do Estado. A expectativa maior de um obsessivo é a de que o Estado faça sua parte na promoção da ordem social, podendo até focar-se no excesso e demandar alguma forma de autoritarismo.

Para um histérico, a quebra da ordem e a destruição social gerará desprazer imediato em sua pessoa. Porém, sua forma de lidar com tal ocorrência será diferente. Ele buscará novas formas de gerar prazer e de evitar o desprazer, com mecanismos de fuga da realidade (negação, fantasias) ou outras formas de compensações neuróticas que gerem algum tipo de prazer pera olvidar o desprazer vivido.

É aqui que as respostas esperadas nesses dois tipos principais de personalidades entram em choque. Se existem dois tipos de reações instintivas humanas, enfrentamento ou fuga, pode-se dizer que enquanto o enfrentamento é características dos obsessivos, a fuga é a característica dos histéricos.

Se o autoritarismo pode ser um excesso neurótico dos obsessivos em estresse social, o histrionismo é o excesso neurótico dos histéricos. Logo, enquanto uns buscarão compelir o Estado a agir, os outros buscarão afastar-se totalmente dos problemas sociais. 

Mas o que mais chama a atenção numa personalidade histriônica, está no fato de que, a partir do momento em que ele presencia a ação obsessiva energética contra o problema, isso o causa profundo incômodo psíquico, a ponto dele voltar-se agressivamente e canalizar toda sua energia representada contra o obsessivo. 

Nessa ação indevida, o histriônico acaba por agir de maneira passiva-agressiva, a acentuar o problema, uma vez que o choque dessas personalidades acaba por anular a soma das forças sociais necessárias a resolver ou problema ou, ao menos, exigir do Estado o cumprimento de suas responsabilidades.

É essencial, portanto, evitar-se tais contextos "passivo-agressivos" entre as pessoas. Divisionismo, nesse sentido, acaba sendo uma estratégia de controle social, focada expressamente a manipular e a provocar nos histéricos uma reação energética contra um alvo indevido, que não é o culpado pelo problema e, por tabela, deixando-se em segundo plano os reais responsáveis: governantes e o Estado.

O melhor caminho à paz individual, está na compreensão das personalidades alheias e suas estruturas. Desse modo, personalidades obsessivas e histéricas podem se entender reciprocamente e foca, conjuntamente, sem excessos neuróticos (autoritários e histriônicos) na busca de se evitar a destruição social.