Uma Sociedade Doente a Caminho de suas Penitências

A natureza é sábia, especialmente quando se trata da certeza dos ciclos da vida e da morte. Espécies quem vivem em sociedades gregárias no reino animal, podem sucumbir quando entram em conflito. Na vida humana, apesar dos ajustes decorrentes da evolução do discernimento, a parte instintiva ainda cobra o seu preço de um desequilíbrio conflitivo social, por vezes não superado com a razão castradora.
Força contraposta nada mais é do que conflito. O que vai variar é o grau de intensidade conflitividade social, a parte do grau de acentuação dos polos e das diferenças. Quando mais em direção à radicalização e aos extremos, mais dividida a sociedade e, por esta razão, mais conflitos haverá em espiral crescente.

Esta é a formula elegida por Freud para identificar o grau de neurose vivido = quanto mais pessoas observáveis nos extremos, mais polarização e maior neurotização. Isto significa que, ao romper com a realidade, para que possa se equilibrar em face da complexidade e da diversidade da vida, o indivíduo tende aos delírios radicais e não mais consegue contrabalancear as ideias a partir do discernimento.

Neste nível de patologia social, tudo passa a ser lido e entendido de maneira desviada do discernimento necessário, da ponderação, prudência e ceticismo exigidos perante qualquer ideologia posta. Se nada é perfeito, qual o sentido de se aderir radicalmente a postulados ideológicos de imperfeições?

Quando se chega a este ponto, talvez a saída pelo amor, pela compreensão alheia, pela empatia e pelas concessões recíprocas em prol de um meio termo possível, não seja mais viável. Um polo já rotulou o outro polo de tal maneira, que as concessões não são permitidas pela rigidez das posições estabelecidas. O amor dá lugar ao ódio pelas rotulagens desumanizadoras reciprocamente atribuídas.

Resta, a tais sociedades doentes, a saída pela dor e pela penitência conjunta a ser paga pelo quadro doentil assumido. Ou seja, todos deverão sofrer conjuntamente, mesmo em lados opostos, até que uma nova configuração os coloque em pé de igualdade e humanização pelo sofrimento compartilhado, de cada lado do front.

Esta é historicamente uma das saídas mais traumáticas observáveis ao transe hipnótico das radicalizações, quando então, o impacto do sofrimento criado e compartilhado reciprocamente traz obrigatoriamente todos para uma visão da realidade.

A destruição enquanto redenção faz parte do inconsciente coletivo humano. Seria até um ritual inconsciente de purificação moral. Não que se deva desejar o sofrimento de todos, porém, quando a sociedade está destrutivamente adoentada, a saída redentora estará acionada, até mesmo para quem assim não desejou experenciar, será engolido pelo caos. 

Salvo os perversos desejosos do casos, em situações assim, limítrofes, caberá aos conscientes do processo em curso, primeiro salvarem-se a si mesmos. Depois, colaborar para a atenuação do caos, dentro daquilo que possível for, desde que não se coloquem assim, diretamente na mira da destruição. Trata-se de um Karma a ser vivido, dentro do Dharma de quem ali sincronicamente foi estar, todavia nunca de graça, segundo tais leis espirituais antigas.