O Pílula Mágica e o Pensamento Salvacionista

Fugir para o mundo da fantasia é uma forma de defesa do ego perante a realidade. Especialmente quando problemas sociais graves são postos à frente da pessoa, seu repertório de respostas tende a ser débil. Por vezes, busca-se num salvador populista a resposta a todos os males. Se este salvador populista tiver uma pílula mágica para tudo, que resolva tudo sem exigir nenhum desforço pessoal, a massa irá aderir a tal fantasia, abandonando qualquer tipo de discernimento sobre o que está a ocorrer.
Na história, Jesuítas colonizadores fizeram dinheiro vendendo na Europa as "garrafadas brasileiras", as quais propunham a cura de vários males, pelo uso de ervas advindas do novo mundo. Atualmente, o governo chinês fatura alto ao autorizar a utilização aberracional de "bile de urso" enquanto cura para o Coronavírus. 

Tais ações nada mais são do que o reflexo para busca de uma "pílula mágica", a cura de todos os males, sem quaisquer desforços, algo que seja capaz de resolver o problema imediato, sem exigir sacrifícios, perdas ou a necessidade de se enfrentar as frustrações naturais realidade indesejada.

Desde a primeira pandemia do Coronavírus humana, ocorrida em 2003, uma vasta gama de substâncias fora testada para seu tratamento. Nenhuma delas fora considerada eficaz. Todavia, a história passa e a novel pandemia traz desafios mais radiciais, pela capacidade de propagação do novo vírus. 

Daí, velhas receitas de cura são requentadas, algo que permita não só a fuga da realidade, mas também criar algum tipo de esperança perante o mal-estar vivenciado. Como pouco se avançou no período, uma breve leitura indica que as soluções encontradas no passado deveriam agora ser vistas com ressalvas.

Isto não se trata de proibir o uso do arsenal de recursos disponíveis. Trata-se de colocar as coisas nos seus devidos lugares, no correto grau de expectativas possíveis de serem atingidas. Tudo o que se observou tem algum tipo de restrição, nada é universal, especialmente quando os tratamentos não tem eficácia direta contra o COVID-10, ou seja, não atacam diretamente o Coronavírus, mas sim, as suas consequências no organismo.

Desse modo, primeiro há que se entender do que se trata, quais as possibilidades e qual o alcance de qualquer proposta terapêutica. Por exemplo, cloroquina, enquanto imunossupressor, teria um papel coadjuvante, ao tratar as consequências do Coronavírus limitadas a casos graves, que são a de provocar uma resposta imunológica excessiva, enquanto inflamação pulmonar e consequente SRAG (síndrome respiratória grave). Todavia, há contraindicações no seu uso e tempo certo para ele.

Utilizar-se a panaceia da cloroquina enquanto pílula mágica, não passa de pensamento salvacionista, algo de alto grau de populismo e comodismo neste momento crítico da pandemia. Se isto fosse efetivo, não teria a China atribuído para si o encontro desta cura? Deixariam para Norteamericanos essa oportunidade?

Relatos (nada científicos) de pessoas que se curaram utilizando-se da cloroquina não passam de dados fáticos, num universo onde 95% das pessoas curam-se espontaneamente da doença. Há que se saber se, no restante dos 1% de casos, onde a gravidade severa leva o paciente à SRAG, isto também ocorreu.

Mas se você ainda acredita em garrafadas, pílulas mágicas, salvadores da pátria, não pode reclamar da realidade, ou atribuir o fracasso de sua "magia" quando seu ídolo falhar ou quando os resultados esperados não forem suficientes como esperado. Claro que outros mecanismos de defesa do ego podem ser utilizados, tais como culpar alguém pelo ocorrido.