Reacionários não são Conservadores

O Brasil é um país da distorção, onde todos os conceitos são enviesados, pois seus utilizadores corrompem a linguagem, para que possam alocar-se à frente de determinados nichos de poder. O que predomina nesta cena estética são as sombras superficiais dos conceitos. Por exemplo, isso está claro quando "reacionários" tentam modernizar seu ranço negativo colocando-se como "conservadores".
Reacionários são o oposto de Revolucionários. De certa maneira, eles são imagens invertidas e distorcidas no espelho, uma vez que seu autoritarismo antidemocrático é compartilhado, uma vez que ambos buscam a alteração da realidade do presente, a partir de um movimento de imposição forçada.

Enquanto o revolucionário olha o futuro, na sua ânsia em transformar a realidade (naturalmente problemática) na sua utopia de um paraíso em terra, o reacionário olha para o passado, visando retornar a um movimento histórico superado, do qual mantém um saudosismo idílico. 

Nas suas fantasias distorcidas, ambos atuam dentro de seus imaginários de opressão simbólica, com justificativas de estarem agindo para o bem de todos. Todavia, esbarram no fato de que, ao negarem a realidade, por meio de suas fantasias de onipotência, agem busca a destruição dela, dando vazão às suas pulsões de morte destrutivas.

Por seu turno, conservadores em nada tem disto. Não há saudosismo e vinculação histórica, nem processo emocional em curso. Pelo contrário, conservadores terão uma desconfiança contra qualquer proposta movida por base fantasiosas de retorno ao passado ou aceleração do futuro. Conservadores sabem das imperfeições emocionais humanas, do processo destrutivo das paixões potencializadas em grupos e por isso, buscam conservar as regras jurídicas e as instituições democráticas.   

Nesse sentido, a principal característica dos conservadores é o ceticismo. São céticos por natureza contra ideias mirabolantes, populistas de plantão e seus seguidores entusiasmados por ideologias, religiões ou qualquer fanatismo. Para eles, só cabe uma visão clara e racional de como o avanço da sociedade deve se dar, de maneira lenta e gradual, sem rompimentos e dentro do jogo democrático.

O reacionário vive imerso na sua nostalgia. Seu aversão e medo da progressão buscada pelos revolucionários é assentada na sua pretensa defesa de certos valores tradicionais ou religiosos, que para ele, são a base da vida em sociedade. No espelho distorcido e compartilhado, o revolucionário vê isso no reacionário e como, o seu lado também radical, que visa exatamente o contrário (avançar para a destruição dos valores tradicionais e religiosos), acaba por retroalimentar o conflito. 
Do embate entre reacionários e revolucionários nasce a tensão necessária ao conflito, o que pode até motivar a escalada da violência. Quando o esgarçamento das regras e das instituições é obtido, ambos obtém o momento ideal para o confronto iminente. 

Numa época em que as crises impostas à realidade não trazem saídas fáceis, uma vez que exigem o enfrentamento dos graves problemas brasileiros, que vão desde a desigualdade até o patrimonialismo, reacionários e revolucionários optam pelo caminho mais fácil, o de querer mudar o mundo apenas pelo uso da força, corrupção ou qualquer outro instrumento que lhes sirva, para estabelecimento de sua nova ordem.

Seria como mudar a fachada, a lona e o nome do circo, mas sem mudar os artistas e o picadeiro. O show continuaria o mesmo, mas o circo estaria sob as ordens do grupo vencedor. Para os conservadores, os problemas brasileiros devem ser atacados pelo caminho mais difícil, o democrático. Ou seja, é legítimo você buscar mudanças, porém, há que obtê-las dentro das regras do jogo estabelecidas no Estado Democrático de Direito, pois este é o princípio fundador da ordem atualmente estabelecida. 

Como diria Freud, as patologias mentais sempre estarão nos polos, nos extremos. Quando observamos reacionários e revolucionários, observamos que a existência de um, acaba por estimular o surgimento e a reatividade do outro. São polos patológicos que se retro-alimentam. Um não existe sem o outro. Lula é uma antítese do regime militar, assim como Bolsonaro surgiu como uma antítese a Lula.


A falta de consciência desses mecanismos mentais incorretos, o apego à fantasia do líder messiânico, a busca de saídas fáceis para problemas complexos faz parte de um imaginário infantilizado e pueril, ainda muito presente na América Latina. Trata-se de uma carência de repertórios, dentre eles, do próprio conservadorismo, que nada mais são do que uma resposta cética, embasada no princípio da realidade.
Por fim, há ainda que se destacar a necessidade de controle, das personalidades reacionárias e revolucionárias. Podem, aparentemente, até não defender a volta ao passado ou o progresso acelerado ao futuro. Porém, desejam assumir o controle dos demais, querer liderar e se impor de qualquer  forma, para poder dominar as outras pessoas. Para estes tipos, essa é o único sentido de suas vidas, impor-se aos outros, usando para tanto de meios sorrateiros, antiéticos, imorais, os quais ele não vê como errados, mas apenas ferramentas necessárias para um bem maior (fins justificam os meios).

Conservadores, aos se embasarem no respeito às regras do Estado Democrático de Direito, jogam pelo poder, entretanto, dentro de certos limites estabelecidos, os quais não rompem com princípios éticos, não são dissimulados ou visam obter vantagens indevidas. Como visão conservar as instituições e regras democráticas, seu nível moralidade no trato da coisa pública foca-se na importância dos meios, mais do que os fins alcançadas. Até porque, para um verdadeiro conservador, não há uma meta histórica ou a obtenção do controle, como está assente nos reacionários.