Interprisões Psíquicas: fanatismo religioso e idolatria política

Fanatismo religioso e idolatria política andam juntos há tempos. Basta fazer uma reminiscência ao tempo dos Faraós, à Idade Média e, atualmente, aos Estados teocráticos. Em todos esses casos, o líder político maior é tratado como semideus, sendo adorado por suas qualidades e perdoado em seus defeitos. Trata-se de uma clássica forma de interprisão psíquica, não facilmente libertável.
A devoção incondicional ao líder messiânico, seja ele religioso ou político, anula a personalidade e a capacidade de julgamento crítico pessoal, fazendo com que a pessoa perca sua individualidade e passe a fazer parte de um rebanho.

Dentro de uma perspectiva libertária, é seu direito escolher seu caminho, sua religião, sua ideologia política e outras crenças e fantasias a orientar sua manifestação psíquica. Todavia, isto só vale enquanto suas escolhas não firam a si, nem a outrem. Ou seja, a partir do momento em que suas escolhas possa significar a agressão injustificada de outrem, você sai do âmbito de sua liberdade e adentra à interprisão de suas escolhas erradas. 

Fanatismo e a idolatria são movimentos passíveis ao radicalismo. Gralmente afetam a parte emocional das pessoas. Elas passam a ser, paradoxalmente, vulneráveis perante o líder e ao grupo, ao mesmo tempo em que, para compensar inconscientemente tal submissão irrestrita, acabam por projetar sua agressividade aos demais. Essa agressividade vem em forma de intolerância, fantasias de onipotência e de superioridade perante os demais, quebrando os limites das regras e instituições para tanto.

Como diria Kant, considera o "fanatismo moral" enquanto exaltação. Ou seja, trata-se de uma ação por impulso, de inspiração, sem aporte racional, mas realizado por alguém que se coloque numa posição de pureza moral e quase santidade, por isso, passível de conflitos de toda a natureza. Daí nascem as interprisões pelo uso exaltado do livre-arbítrio.

A rotulagem para o fanático ou radical é instantânea. Quem não está conosco ou com nosso líder, é nosso inimigo. A rotulagem provoca a desumanização do outro, retira-lhe a alteridade. Ao fazer isso, permite e justifica que contra ele seja dirigida qualquer agressão. Por exemplo, grupos radicais de direita e esquerda rotulam-se mutuamente, enquanto inimigos, com termos pejorativos, como fascista e comunista.

Outra característica das interprisões psíquicas dos fanáticos/idólatras no extremismo por eles proposto enquanto método de ação. Como são revolucionários/reacionários, querem, pelo uso da força, que os desejos de seu líder sejam impostos a todos. Nesse sentido, não há nada de bom-senso, empatia ou inclusão da diversidade, como se espera de um progressista, nem precaução, ceticismo e respeito às instituições, como se espera de um conservador.
Fanáticos/idólatras olham seus líderes como o Sol
O Fanatismo e a idolatria cegam, porque a eles está ligado uma falsa crença de virtude. A pessoa se acha e se apresenta perante seu grupo (rebanho) como virtuosa, porquanto mais radical ela se manifesta. Sua fidelidade irrestrita ao líder messiânico, tal qual um cão adestrado que rosna para estranhos e depois será agraciado com algum petisco. Daí o lado inerente da corrupção, dos ganhos secundários, da busca de vantagens obtidas a reforçar o seu comportamento na manada.

Fanáticos/idólatras nem sempre são perversos. Porém, é certo que quanto mais próximos dos líderes políticos messiânicos, mas acesso às benesses do poder, ganhos eles terão. Pelo contrário, quando mais distante desses líderes, maior será a carga de vulnerabilidades do fanático/idólatra, a ponto de a ele somente restar a canga interprisional de sua exaltação. 

Sair dessa interprisão psíquica não é tarefa fácil. Fanáticos ou idólatras, se perderem seu líder, imediatamente irão escolher outra figura populista ou messiânica para seguir. E rapidamente encontraram justificativas e legitimidade para o que fazem e sobre quem seguem.

Logo, você deve fazer um teste de realidade consigo. Você segue fielmente a algum líder religioso ou político? Se sim, você consegue criticar publicamente erros, imperfeições e falhas dele? Se sim, em quais condições você teria liberdade para exigir sua destituição, impeachment ou afastamento?

As respostas a essas perguntas irão delimitar a força da sua interprisão psíquica a fanatismos e idolatrias. A saída? Criticismo, razoabilidade e objetividade são três ações mentais voltadas ao discernimento. Liberdade requer que você deixe de seguir líderes e seja seu próprio e único guia.