Samy Dana e as Dimensões do Libertarianismo

A noção inicial da Libertarianismo, por paradoxal que possa parecer, nasce na Rússia, pré-revolução socialista. Naquele momento de ebulição social, todos os tipos de ideias políticas e econômicas foram colocadas livremente à prova na sociedade. Dentre elas, o Anarquismo proposto por Mikhail Bakunin, que confrontava diretamente as ideias propostas por Karl Marx e seu Socialismo Científico.
Bakunin propunha a total abolição do Estado, o fim do Capitalismo e a autogestão da sociedade por meio da coletividade. Como pode ser observado, isso é diametralmente oposto à ideia de um Estado forte, centralizador e controlador de toda a sociedade, como foi verificado após a revolução Bolchevique na Rússia. O Anarquismo foi vencido, mas sua filosofia persistiu no tempo.

Posteriormente, numa segunda fase, surgiu um outro movimento, o qual procurava ligar a ideia de abolição do Estado, com a manutenção do sistema de Economia de Mercado (Capitalismo) e da propriedade privada. Esse movimento chamou-se de Anarcocapitalismo. Identificado pela sigla ANCAP, sua origem está vinculada ao pensamento de Ludwig von Mises e de Murray H. Rothbard, da chamada Escola Austríaca de Economia.
Como pode ser visto, a evolução do conceito migra de uma proposta de Socialismo sem Estado, para uma visão de Capitalismo sem Estado. Em ambos os casos, o foco está na questão política e econômica, as quais seriam as molas mestras da vida em sociedade.

Por fim, chega-se ao terceiro estágio, o chamado de Libertarianismo. O termo, em Inglês, Libertarian, na origem, albergaria várias possibilidades, desde ANCAPS, miniarquistas e liberais. Desse modo, seriam libertários todos os que, de alguma maneira, defendessem a diminuição do tamanho do Estado, aliada ao Princípio da Não-agressão. Ou seja, um pensamento não revolucionário, pois pressupõe mudanças dentro das regras do jogo democrático e das instituições existentes.

Jonh Locke e tantos outros pensadores iluministas podem ser considerados as bases do pensamento libertário da sua fase seguinte. Em muito Libertarianismo confunde-se com todos aqueles que, vão além da questão da abolição ou redução do tamanho do Estado, acompanhada da liberdade econômica dos indivíduos e, além desta, ao defender todos os tipos de liberdades humanas sobre o seu próprio ser, desde que não se fira o Princípio do Não-agressão. Isto tudo resultou na terceira fase do Libertarianismo, aquela atingida com a Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948.

Nesse momento, o foco foi garantir as liberdades humanas de todos os níveis, limitando a ação dos Estados. Tal fase foi albergada por todas as Constituições Democráticas e espelhou as conquistas seguintes, sobre liberdades gerais da personalidade.  

O quarto estágio do Libertarianismo é o mais complexo, pois ele envolve o componente psíquico, existencial desta filosofia. Ele começa com Ayn Rand. Trata-se de um olhar inicialmente instrospectivo. Um olhar para si, para sua condição humana, na qual está inserido e do como deve, a partir de uma tomada de consciência do seu destino, atuar em prol da sua própria libertação.
Libertar-se a si requer a noção das interprisões humanas na qual está inserido e nas quais não deva se inserir, para profilaticamente evitar ter sua liberdade tolhida. Trata-se de um arte de viver sua existência voltando-se à sua consciente libertação em todas as suas tomadas de decisão para, a partir daí, poder permitir a libertação dos demais.

Nesse ponto, o Estado deixa de ser o alvo da ação e a o objetivo existencial volta-se, primeiramente, ao próprio indivíduo. Aqui, o Estado deve ser usado, há que se fazer como o "vírus", contaminando o organismo e aproveitando-se do seu recurso para se replicar e vencer o pleito.

Nesse sentido, busca-se em Amartya Sen, economista e prêmio Nobel de Economia, a resposta para tanto, quando o Estado passa a ser devedor de liberdades qualificadas ao indivíduo, as quais o permitam ter condições iniciais de voar aos seus próprios objetivos. Inclusive, o de agir para reduzir o próprio Estado. 

Logo, o erro de Samy Dana, na sua entrevista para a canal "Flow" do Youtube, está no fato de "economicizar" e pragmatizar o conceito de Libertarianismo somente à Escola Austríaca de Economia. Essa visão mecanicista e antiquada, não consegue atingir à noção sistêmica e ecológica do Estado e da sociedade perante o Direito.

Como pode ser visto, isto é um tipo clássico de interprisão à Ciência Tradicional, aquela que afeta a mente, onde o indivíduo somente vê o que seu foco formacional permite ver, colocando todo o restante abaixo de seu radar mental.

Como disse Ayn Rand, deixemos de ser selvagens. Siga a sua vida e não se permita ser anulado por quem quer lhe manter em servidão voluntária a quem vive e retroalimenta e é bem pago pelo Matrix atualmente existente no Brasil.

A última dimensão é a espiritual. Preconizada desde a antiguidade em várias correntes filosóficas e espirituais. Ora chamada de uma busca pelo Nirvana e ora por paraíso, o desprendimento ocorre de maneira interna, a partir das transmutações ocorridas, com cada indivíduo.