Você Sabe com Quem Está Falando? Sim, com Roberto DaMatta

 Hoje aproveitamos o caos da ausência de vacinas, da chegada da Cepa P1 do Covid e de outras inépcias estatais para fazermos uma resenha da obra "Você sabe com quem está falando: estudos sobre autoritarismo brasileiro", do Antropólogo Social e Professor Titular da PUC-Rio, Roberto DaMatta. Trata-se de obra ímpar, para quem quer conhecer a hierarquização das relações sociais no Brasil.

Partindo do fim para o começo, numa tentativa de transgredir a ordem hierárquica das coisas, não posso deixar de ressaltar que o terceiro capítulo da obra foi o mais empolgante para mim. Seja pela síntese inicial do pensamento do autor, a resgatar o sentido inicial de outra obra sua "Carnavais, Malandros e Heróis" (Rio: Rocco, 1979), até adentrar a questões transcendentes de qualquer sociedade, nos chamados "rituais de passagem", algo arquetípico nos chamados "mitos de herói".

Aqui o autor procura demonstrar a conexão entre os conceitos de "liminaridade" e de "individualidade", algo presente nos "rituais de passagem", onde o sujeito adentra a um processo existencial cujo isolamento o faz transgredir sua adesão ao coletivo, ao mesmo tempo em que somente assim, surge-lhe a oportunidade de individualização e reconexão ao seu "eu", antes do seu retorno.

Na liminaridade estaria o risco, o perigo, a forma como o coletivo vê e até recrimina o indivíduo que ousa iniciar seus rituais existenciais de passagem, uma vez que assim acessa ao "limiar", aos limites de sua submissão ao sistema. O perigo está na possibilidade de que ele decida completar seu ritual de passagem e avançar para além dali. Isso implica que, em sua volta, irá confrontar o sistema e não mais dele aceitará o papel a ele destinado. 

Tratando enquanto marginal "à margem", tal figura é arquetípica. Porém, o autor dá a ela um reconexão ao seu significado inicial, perdido na modernidade, a qual só vê aspectos negativos nesses eventos. Para ele, há algo de positivo em isolar-se do mundo, recobrar seu sentido e individualidade. Essa seria a única saída das prisões coletivas da própria mente autoritária brasileira.

Assim como o é o Carnaval, momento de júbilo do limiar transgressional do brasileiro, momento único onde a igualdade realmente impera, ao permitir o acesso do indivíduo à quebra dos papeis que desempenha de maneira rígida no jogo social. No Carnaval, a transgressão passa a ser a única regra. É ela a oportunidade de extravase da canga autoritária deste país governado por macunaímas e medalhões de todos os tipos.

O Carnaval enquanto rito de passagem anual, garante um espaço único de percepção de como nossos padrões sociais são engessados, algo que não somente ocorre em torna da sexualidade, mas também da própria realização dos afetos, os quais, no Carnaval, são colocados à prova das regras rígidas estabelecidas.  

Nossa cordialidade nada mais é do que uma forma de doce submissão a quem está no degrau de cima, a espera de seus favores. Caso não desempenhada corretamente, resta ao sujeito ser tratado como indivíduo e não mais pessoa. Ou seja, aos amigos, tudo, aos inimigos, a lei. Você sabe com quem está falando?" Essa seria a expressão clara e inequívoca dessa demonstração de poder, de tais relações hierárquicas demarcadas nos conflitos existentes, apesar de serem negados pelo brasileiro.
"Pois o autoritarismo do ritual sugere uma situação conflitiva, e a sociedade brasileira parece ser avessa ao conflito. Não que com isso ele seja eliminado. Ao contrário, como toda sociedade dependente, colonial e periférica, o Brasil tem um alto nível de conflitos e crises. Mas entre a existência da crise, de sua negação e do seu reconhecimento existe um vasto caminho a ser percorrido."(p. 25).
O pior de tudo é que não nos damos conta desse quadro muitas vezes, pois ele existe em nossa cultura, em nosso inconsciente coletivo. Alguns traduzem isso sobre "patrimonialismo". De qualquer forma, são resquícios de uma sociedade escravagista, ainda imatura quanto ao espaço da existência de indivíduos autônomos e independentes, sob o império de um Estado Democrático de Direito que os deveria permitir igualdade.

Isso não ocorre porque a lei só vale aos subalternos sociais, ao povo. Aqueles que não tem qualquer relação com o poder constituído e, perante o qual, ou quem dele aproveite-se, exija um tratamento hierárquico. Isso é facilmente visto na classe de funcionários públicos de alto escalão e políticos, nas suas contínuas e infinitas exigências de privilégios, tratamentos diferenciados e benesses. 

Em políticos populistas, DaMatta encontra aquilo que ele chamou de "nirvarna social", uma zona no qual a pessoa passa a estar acima das leis ou de qualquer acusação, seus pedidos não podem ser recusados e suas realizações não podem ser atacadas. Tudo o que vem os inferiores é "ingênuo" ou pode ter sido conduzido por inimigos. "Mas tudo o que vem de cima é sagrado e puro. É alguma coisa que tem uma legitimidade indiscutível e deve ser levada à sério." (p.90).

Quanto mais o político populista puder personalizar a lei, maior será a demonstração de poder. Isso se manifesta também nos foros privilegiados, nas vantagens e benesses para os do andar de cima, com poder governamental ou até "para destruir adversários". (p.95-96)

À plebe, só resta agir em cordialidade perante a hierarquia, para fins de conseguir alguma facilidade em face da dureza da vida. Seja um despachante, um conhecido do conhecido, o importante é encontrar alguém que faça a ponte entre o "zé ninguém" e o detentor de alguma autoridade e que possa aliviar as agruras do "fetiche burocrático" nacional, por papeis e documentos sem fim, cuja função é estabelecer o império da lei, a quem deva cumpri-la impessoalmente. Tais mediadores não só lucram com a função, como desempenham um papel essencial no desenvolvimento da vida cotidiana brasileira.

Quando não se age com cordialidade submissiva, onde cada qual deve saber o seu lugar, corre-se o risco da hierarquia dos papéis sociais ser imposta por meio da violência. Seja ela simbólica (por ex. carteirada) ou não, a rejeição da aceitação da regra e da autoridade não é bem aceita e, pelo contrário, até justifica muito dos abusos cometidos. Por exemplo, a violência de gênero.

Não espanta que somente no Carnaval isso pode ser quebrado. Pois o Carnaval é antissistema, uma rejeição social aos mecanismos estruturantes da modernidade e do próprio Capitalismo, ao puritanismo e sua moralidade adjacente. Tal transgressão acaba na quarta-feira de cinzas, com a promessa de retornar ao ano seguinte.

Fora dela, resta a saída do ritual de passagem pessoal, o caminho do estudo (scholar), da iluminação (xamã), peregrinação ou até da assunção de alguma rebeldia individual contra o sistema. Sempre algo que coloca em risco o interesse da maioria, pois quebrar o ciclo de hierarquização é criar dificuldades sociais.

Tais saídas levam ao isolamento, algo que é visto como nocivo no Brasil, apesar de representar o cotidiano da vida em países desenvolvidos, onde o indivíduo é alçado à sua vida pessoal plena e onde dela procura maximizar sua realidade. 

Além disso, para o autor, uma mudança social contra o autoritarismo somente pode ser obtida se a individuação, após o ritual de passagem, permita ao "noviço", ao jovem em formação, novas visões de mundo paralelas, a partir de uma criação de consciência social expansiva.

Nesse sentido, aquele que se permite viver o ritual de passagem, apesar de se colocar "fora de ou em rejeição ao mundo" e dos papeis sociais, aproveita o seu isolamento para vivenciar experiências críticas e reconfigurar sua consciência. Ao retornar, adere novamente ao mundo e nele se coloca de maneiras diferenciadas, pois sua nova bagagem experencial gerou um novo patamar de liberdade.

"Eu desejo que minha vida e decisões dependam de mim e não de alguma força externa de qualquer tipo. Eu desejo ser instrumento de mim mesmo e não dos atos de vontade de outros homens. Desejo ser o sujeito, no o objeto; ser movido por razões, por propósitos conscientes que são meus, e não por causas acidentais que possa me afetar de fora. Eu desejo ser alguém, não ninguém; [ser] um fazedor - decidindo e não sendo decidido[...]" (p. 179
Daí o perigo dos noviços iniciáticos, na sua busca pelo ritual de passagem. Sua glorificação representa  a quebra de padrões e com isso, o nascimento da liberdade. Em sendo isso "algo marginal" ao padrão cultural estabelecido, a ponto de poder questionar a sua própria existência, não é algo admissível e perante o qual sempre haverá algum tipo de evitação.

Como ironiza o autor, o Brasil é um país à parte, com "bilionários socialistas, putas que gozam, liberais familistas, fascistas de esquerda e tantos fuxiqueiros profissionais..", encerrando sua introdução à obra com a noção realística de que, aos 80 anos, "a benévola ausência de futuro permite ver com nitidez que os avanços feitos no passado não garantem em nada o futuro". Talvez não o de todos os submetidos à violência simbólica do sistema hierárquico imperante em "terra brasilis", porém isso pode fazer diferença no seu caminho. 

Leitura recomendada!